Copom mantém juros, mas acena com alta gradual

'Balanço de riscos' contrapõe uma ainda elevada ociosidade na economia

José Paulo Kupfer

19 Setembro 2018 | 19h46

O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, por unanimidade, nesta quarta-feira, manter a taxa básica de juros em 6,5% nominais ao ano, nível em que se encontra desde março. A decisão era amplamente esperada, da mesma forma que os alertas contidos no comunicado emitido no encerramento da reunião. O Copom avisou que os riscos para a inflação aumentaram, assim como aumentaram as possibilidades de retomada mais adiante de um novo ciclo de altas na taxa Selic. Lembrou que as estimativas do mercado para os juros básicos em 2019 encontram-se em 8%.

Nos termos do comunicado, os estímulos à economia, representados por juros básicos abaixo da taxa considerada neutra, poderão ser “removidos gradualmente” se as perspectivas para a inflação apresentarem piora. As próximas reuniões do Copom, ainda em 2018, ocorrem no fim de outubro, três dias depois do eventual segundo turno das eleições – e da definição do novo presidente –, e na segunda semana de dezembro.

O chamado “balanço de riscos” contrapõe uma ainda elevada ociosidade na economia, que mitiga as pressões inflacionárias, inclusive as originadas de altas do dólar, a possíveis percepções negativas sobre a agenda de reformas econômicas, que, segundo o BC, afetam as expectativas e projeções correntes. Nos modelos de previsão do Copom, com a cotação do dólar nos níveis projetados pelo mercado, abaixo de R$ 3,80, em 2018 e 2019, as estimartivas de inflação permanecem abaixo do centro da meta em 2018 e 2019. Contudo, se o valor da moeda americana permanecer em torno de R$ 4,15, a variação da inflação apontará para o entorno do centro da meta neste ano e um pouco acima, no ano que vem.

Com mais intensidade desde maio, quando as cotações do dólar passaram a escalar  rumo aos R$ 4, o Banco Central dedicou-se a uma verdadeira catequese do mercado. Se é verdade que tenha piscado em maio, quando manteve a taxa básica nos 6,5%, depois de indicações de que continuaria a reduzi-la, desde então vem cumprindo a cartilha. Essa cartilha reza que não se combate altas do dólar com política monetária, ou seja, com movimentações nos juros, mas com instrumentos próprios, a exemplo dos swaps cambiais.

Pelas regras convencionais, os juros só devem entrar em campo quando quando o dólar muda de patamar e se mantém em alta persistente. A ausência de surpresas com a manutenção da Selic, embora em ambiente de volatilidade e pressão sobre o real ante o dólar, comprova que a pedagogia foi exitosa.

No regime de câmbio flutuante e no sistema de metas de inflação, de fato, não se deve considerar, como o Copom repisa há meses, a existência de relação mecânica entre elevações nas cotações do dólar e uma ação sobre os juros. Mas, a história tem sido enfática em registrar que, em economias com moedas inconversíveis, caso da brasileira, mesmo na presença de câmbio flutuante e metas de inflação, os riscos para a inflação, numa reação a altas da moeda americana, se acentuam.

As altas de juros em resposta a pressões inflacionárias a partir de movimentos nas cotações do dólar refletem situação de “dominância cambial”, quando, na prática, a política monetária opera como se o regime de câmbio fosse fixo. As recentes turbulências na economia argentina são um exemplo elucidativo dessa situação. Quando, há pouco menos de cinco meses, o peso começou a derreter ante o dólar, a reação do Banco Central da Argentina foi jogar as taxas de juros nas nuvens.

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