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Copom prefere caldo de galinha antes de acelerar

José Paulo Kupfer

30 Novembro 2016 | 19h22

Os diretores do Banco Central, reunidos no Comitê de Política  Monetária (Copom), resistiram às pressões do mercado financeiro e foram cautelosos no corte da taxa básica de juro, na última reunião de 2016, nesta quarta-feira. Mesmo diante de um aprofundamento da recessão, no terceiro trimestre do ano, e das projeções de retomada mais lenta e mais tímida da economia, em 2017, evitaram acelerar para 0,5 ponto porcentual a redução da taxa Selic. Por unanimidade, preferiram um corte de 0,25 ponto — de 14% ao ano para 13,75%.

As incertezas do ambiente externo, com clara concentração na expectativa de que os juros de referência, nos Estados Unidos, comecem a subir antes do fim do ano, parecem ter sido determinantes da decisão do Copom. O comunicado emitido no encerramento do encontro destaca, logo no primeiro item da lista de riscos para a inflação, “o possível fim do interregno benigno para economias emergentes”. O fato seria consequência da “elevada probabilidade” de retomada do “processo de normaliza;áo das condições monetárias nos Estados Unidos — ou seja, de altas nas taxas de referência, no mercado americano.

Traduzido do “coponês” — idioma do Copom agora simplificado na comunicação do BC com o público, mas ainda fortemente presente –, altas de juros nos EUA teriam a capacidade de aspirar para os Estados Unidos recursos  financeiros mantidos em mercados emergentes, o que exerceria pressão desvalorizadora sobre a taxa de câmbio e, na volta do parafuso do processo, pressões sobre os índices de inflação. É que, em regimes de câmbio flutuante, estabelece-se um sistema de vasos comunicantes entre taxas de juros e taxas de câmbio. Esse sistema funcionam de tal modo que, quando as taxas de juros sobem — ou caem mais lentamente –, as taxas de câmbio valorizam ou desvalorizam mais devagar.

Ao reconhecer, contudo, tendência deflacionária nos preços, em linha com uma atividade econômica fraca e um nível alto de ociosidade, o Copom, em seu comunicado, fornece uma chave que pode ser entendida como um sinal preliminar de que se prepara para novos e mais agressivos cortes nos juros básicos. Analistas  consideram que, já no início de 2017, os cortes nos juros serão de 0,5 ponto, de tal forma que, no fim do ano, a taxa básica esteja se situe nas vizìnhanças de 10% — cerca de 5%, em termos reais, contra atuais mais de 7%.

Contribui para a perspectiva de aceleração do passo na redução dos juros básicos, na direção desejada pelos ansiosos representantes do mercado financeiros, daqui para frente,  a crença, também destacada no comunicado desta quarta-feira, de que os ajustes  e reformas da economia poderão ser mais rápidos.