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Crescem os riscos de voltar para a crise antes de sair dela

José Paulo Kupfer

21 de novembro de 2009 | 11h57

Fala-se cada vez mais na saída da crise global e de suas consequências – aumento de juros, como já fizeram Austrália, Noruega e, segundo analistas, fará o Brasil em algum momento de 2010 –, e aperto fiscal. Mas ainda não se botou de pé nada de prático para eliminar as causas que deram origem à crise. Se essa inação prevalecer, é possível que, antes que se saia desta, a economia mundial mergulhe em outra.

Por isso, o tom do depoimento do secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, no Congresso de seu país, quinta-feira, surpreendeu positivamente. Ele instou os parlamentares a aprovar logo as propostas do governo para reformar o sistema financeiro. Entre outros pontos, Geithner argumentou que todas as empresas do setor precisam estar sob o mesmo guarda-chuva regulatório e de supervisão.

Diferentemente do Brasil, nos EUA, os parâmetros de segurança não são os mesmo para bancos de varejo, bancos de investimento e seguradoras. É uma das razões de origem da crise, uma vez que os bancos de investimento dispunham de uma capacidade de alavancagem superior à dos bancos de varejo.

Em tese, os bancos de investimento teriam de ser mais cuidadosos porque a lei não previa que pudessem ser salvos pelo Federal Reserved (o banco central americano). Deu no que deu. O Fed intermediou o salvamento do Bear Stearns, mas, junto com o Departamento do Tesouro, deixou que o Lehman Brothers sucumbisse – o que é tido como o fator desencadeante da crise global.

O secretário do Tesouro também quer que os EUA tenham menos instituições para fiscalizar os bancos. Lá, o modelo é pulverizado, o que dificulta a tarefa do governo. Geithner pretende concentrar tudo debaixo das asas do Fed.

Mesmo que os EUA corrijam suas próprias deficiências, o mundo ainda estará longe de ter eliminado o risco de outra crise financeira. Há um consenso de que, por causa da globalização, o setor bancário precisa de regras uniformes em todos os países. Não é à toa que o assunto tem sido debatido no âmbito de instituições multilaterais, como o G-20 e o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês).

Nessas esferas, há duas propostas principais em discussão. A primeira delas prevê um aumento do Índice de Basileia nos países desenvolvidos. No Brasil, por exemplo, o BC exige que os bancos tenham um índice mínimo de 11%. No exterior, são 8%. O indicador mede a relação entre patrimônio e ativos ponderados pelo risco. Isso significa que, para cada R$ 1 de patrimônio, a instituição pode emprestar no máximo R$ 9 no Brasil e aproximadamente R$ 12 lá fora.

A outra diz respeito ao que foi batizado de “colchão anticíclico”. Em épocas de expansão do crédito, os bancos teriam de elevar as provisões para fazer frente a eventuais problemas em momentos de dificuldades. É um modelo que a Espanha adotou, com êxito, depois de enfrentar uma crise no sistema financeiro nos anos 70.

 Ideias, como se vê, existem. O que falta é colocá-las em prática. Empurrar com a barriga porque, em resumo, implantá-las não é fácil, é uma “solução” que apenas pode agravar as dificuldades para adotar as medidas de correção necessárias.

 A verdade é que, quanto mais o tempo passa – e generaliza-se a sensação de que mudanças não são mais necessárias porque a crise acabou –, maiores ficam os riscos de que uma nova crise esteja a caminho.

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