Crescimento com desigualdade

José Paulo Kupfer

08 de maio de 2008 | 19h29

A economista Eliana Cardoso, hoje professora titular da Escola de Economia da FGV-SP, escreveu um interessante artigo no “Valor” de hoje (aqui, para assinantes), sobre pobreza e distribuição de renda no mundo, nos 25 anos que vão de 1980 a 2005. A conclusão é a de que a desigualdade aumentou nas pontas da pirâmide e se reduziu no meio da escala. Ou seja, os ricos ficaram mais ricos e os pobres, mais pobres.

É um fiasco para um período de crescimento acelerado, em linha com uma acelerada desregulação da economia. Um estudo, citado por Eliana, mostra que, em 2005, a renda dos países em que estão os 10% mais ricos do mundo era cem vezes maior do que a renda dos países onde estão os 10% mais pobres. Em 1980, a diferença era menor – de 60 vezes.

Estudos em sentido contrário, também mencionados por Eliana, concluem que a desigualdade era menor em 1998 do que em 1970. É a verdade que China e Índia, com forte crescimento, nas últimas décadas, promoveram a incorporação de vastos contingentes a um padrão de renda relativamente menos distante do exibido nos países mais ricos.

Mas, mesmo esse movimento não foi suficiente para derrubar a tendência de aprofundamento das distâncias entre ricos e pobres no planeta. Com a crise dos alimentos e a crise financeira global, a etapa de desregulação generalizada, que sucedeu a um período de busca de um estado de bem-estar, apoiado em maior intervenção de governos, parece já ter dado o que tinha de dar. O mercado, na versão relativamente pura que predominou nas últimas duas décadas e meia, comprova-se, mais uma vez, sabe produzir, mas não sabe distribuir.

* * *

Peço licença para usar um espaço preferencialmente dedicado ao debate da economia e suas disseminações pela política e outros campos, numa nota pessoal. É para mim chocante não só a naturalidade como mazelas históricas brasileiras são encaradas, mas também a freqüência com que isso ocorre. A intervenção do senador Agripino Maia, no depoimento da ministra Dilma Rousseff, invocando a tortura para insinuar que a ministra poderia mentir no depoimento é mais um desses casos que produzem tal indignação que é a alma que pede a palavra.

Se este fosse um país em que a indignação das pessoas não fosse tantas e tantas vezes desperdiçada em causas de menor grandeza, o senador Maia não escaparia de um processo por quebra de decoro. E a discussão do atentado à democracia não se limitaria a um triste cálculo político sobre a “esperteza” ou, numa versão mais benévola, à competência de Dilma para tirar partido político-eleitoral de uma escorregada da oposição.

Insinuar que Dilma, por ter declarado que mentiu quando torturada nos porões da ditadura militar, poderia mentir outras vezes, inclusive no depoimento que prestava na comissão de infra-estrutura do Senado Federal, é de revirar o estômago.

Não é preciso ter passado por uma sessão de tortura para saber que, sob tortura, todos os princípios éticos e morais viram de cabeça para baixo. Quem foi torturado, como Dilma e tantos e tantos outros, jamais esquecerão e nunca duvidarão de que nada poderá ser mais ético do que mentir e se valer de todos os truques para tentar enganar o torturador.

Sob qualquer circunstância, em nome do que quer que seja, a tortura é um ato de degradação humana, um crime hediondo contra a civilização. É, por isso, tarefa de máxima prioridade de qualquer sociedade que se queira digna do nome e, sobretudo, daqueles que a representam nas instâncias do poder, condenar e impedir a prática de tortura, física ou moral – e não só aquela que visa à repressão política, mas também a cometida por autoridades contra cidadãos acusados de crimes comuns, ou por quem for contra seres indefesos em geral, em casa, na escola e no trabalho.

Para quem foi vítima ou mesmo apenas teve notícia do terrorismo praticado pelo Estado sob o regime militar, já foi chocante ouvir recentes elogios do presidente Lula a obras de ditadores como o general Emílio Médici, sob cujo governo a tortura se disseminou. Mas o horror produzido pelo líder oposicionista no Congresso foi ainda pior. Só não foi pior do que a leveza como foi tratada a perfídia do senador Maia.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.