Cuba não é plana

José Paulo Kupfer

20 de fevereiro de 2008 | 18h54

A Cuba que Fidel Castro lega aos cubanos é uma pedra no sapato das ideologias. À esquerda e à direita, há fatos nítidos o suficiente para alimentar bons argumentos de parte a parte.

Para a esquerda, nada vale mais do que os índices de desenvolvimento humano alcançados na ilha. Para a direita, as restrições à liberdade individual, principalmente as de expressão, impostas a ferro e fogo aos cidadãos, dissolvem o valor de qualquer tipo de possível avanço social.

No debate infindável, o pior é a desqualificação dos argumentos de um lado e de outro. Duvidar das conquistas cubanas em segurança alimentar, saúde, educação e segurança pública com contorcionismos estatísticos é combater um mau combate.

O mesmo vale para quando, em nome do elogio dos avanços sociais cubanos, não se quer enxergar na ditadura – ainda que latina e salseada, mas ditadura com todos os “dd” e “ii” – aquilo que é cobrado em outras paragens: a garantia dos direitos humanos e da liberdade de expressão política. Como se não fosse possível ou, pelo menos, não fosse altamente desejável que o desenvolvimento social aflorasse em ambiente de garantia das liberdades individuais e de plena democracia.

Com a renúncia de Fidel, o que mais tem contribuído para embaçar os argumentos é a confusão entre o estado da economia cubana e os indicadores sociais. Estes últimos são, sim, excepcionais, mas pouco têm a ver com a calamitosa situação econômica. Não é absolutamente comum encontrar um país pobre, como é o caso de Cuba, no qual a expectativa de vida é igual a do mais rico do planeta, mesmo com uma renda per capita dez vezes menor.

Estamos acostumados a associar os avanços sociais à expansão da economia. Crescimento faz aumentar renda e oportunidades de obtenção de renda, mas não necessariamente tem de ser assim. Faz tempo que especialistas do primeiro time, como Ricardo Paes de Barros, do Ipea, batem nessa tecla.

O resumo da idéia é que, mesmo sem crescimento, é possível obter reduções importantes nas desigualdades, ainda que, assim, a renda dos mais pobres melhore, em detrimento da renda dos mais ricos. “É uma situação melhor do que não melhorar a renda de ninguém”, defende Paes de Barros.

Embora tenha experimentado uma recuperação econômica, a partir do ano 2000, com base em investimentos venezuelanos, com anos, como 2005 e 2006, de crescimento em ritmo chinês, a economia cubana, que afundara desde que deixou de ser subsidiada pela então União Soviética, no início dos anos 90, continua muito modesta (equivale, por exemplo, a pouco mais de 5% da brasileira) e pontilhada de barreiras a uma expansão sustentada.

Há, obviamente e em primeiro lugar, o embargo americano, que inviabiliza os investimentos externos em volumes necessários à reconstrução e ampliação da infra-estrutura produtiva cubana. Mas não só.

Há também fragilidades gritantes no setor de geração de energia e um elevado grau de incerteza quanto à disposição dos dirigentes cubanos em cumprir o combinado com os investidores. Apesar disso, não se pode nunca esquecer as peculiaridades cubanas. Mesmo com crescimento médio muito insatisfatório, o índice de desemprego não chega, segundo estimativas da Cepal, a inacreditáveis 2%.

É possível que, em analogia à tendência para algum tipo de abertura controlada, da política e da economia em Cuba, o embargo americano, a peça chave na decifração do futuro da ilha caribenha, pode estar caindo de maduro. Com Barak Obama ou mesmo Hillary Clinton, na presidência dos Estados Unidos, as chances de suspensão do embargo, que se provou ineficiente no seu principal objetivo declarado – apressar a restauração da democracia em Cuba -, aumentam muito.

Uma distensão política e, sobretudo econômica, à la China ou, mais adequadamente, à moda do Vietnã, é o que o senso comum imagina para o futuro de Cuba. A ver. A Cuba que Fidel deixa, por enquanto sem sair de perto dela, parece se assemelhar ao Japão da arguta observação do superior jesuíta, na segunda metade do século XX, D. Pedro Arrupe, que cumpriu missão no país em plena Segunda Guerra: “Quem passa uma semana no Japão, escreve um livro; quem passa um mês, faz uma monografia; quem passa um ano, não entende nada”.

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