finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Cuidado com as projeções

José Paulo Kupfer

20 de novembro de 2008 | 08h08

Em tempos bicudos, quando a oferta se contrai, a oferta de projeções econômicas é uma das poucas que costuma acelerar. Nesse mercado, em que poucos exigem certificado de origem dos “produtos” oferecidos, o importante é sair na frente.
 
É aí que a “regra Bill Gates” prevalece. Cada vez mais dominante, a “regra Bill Gates” ensina que primeiro se deve lançar o produto e depois ajustá-lo – a correção dos bugs fica para depois, nas novas versões que vão saindo. Azar dos “early adopters”.
 
Estamos vivendo um tempo para lá de bicudo e, portanto, de grande aumento na oferta de projeções econômicas. Boa parte delas, naturalmente, segue a “regra Bill Gates”. Assim, fica um primeiro alerta: todo o cuidado é pouco com as projeções do momento sobre o futuro da economia. No caso do Brasil, a recomendação, não é preciso perder tempo explicando, é de que o cuidado seja redobrado.
 
Uma novidade desses tempos bicudíssimos é a compulsão em determinar, o quanto antes, se uma dada economia entrou ou não em recessão. Não faz muito sentido, mas a pressão para se chegar logo lá é evidente. Qualquer 0,1% de retração por dois meses, como no caso do Japão (ou, ao contrário, como na França, que “escapou” por 0,1%), já é suficiente para que se decrete uma “recessão técnica” – com tudo o que pode ser desencadeado com isso. Profecia auto-realizadora é pouco.
 
Não é que as estimativas de queda no nível de atividade, de recessão ou mesmo depressão estejam fora da realidade. Já passou o tempo das dúvidas sobre a gravidade da crise. É grave, sim, aliás, gravíssima. E não deixará ninguém de fora. Mas qual a vantagem de amplificar o medo do escuro e, com isso, acelerar e antecipar a escuridão?
 
De mais a mais, recessão não é assim uma determinação automática, de acordo com regras invariáveis e genéricas. A tal “recessão técnica”, em moda no presente momento, é tão ridícula quanto certos exercícios econométricos – chutometria rústica com ares de grande ciência. Recessão, na verdade, é um estado econômico, sujeita às condições ambientais e às circunstâncias do momento.
 
Um crescimento anual de 6%, por exemplo. Pode expressar um fabuloso aquecimento no Brasil, coisa que não se vê por aqui há décadas e, ao mesmo tempo, fortíssima contração na China. Do mesmo modo, um crescimento de 2% pode ilustrar situações díspares. Na França ou na Inglaterra, até que não seria um mau negócio. Mas, no Brasil, como mostra a nossa experiência recente (esta foi a média de crescimento anual, nos anos FHC), configuraria uma típica recessão – a capacidade instalada teria folga e o desemprego tenderia a aumentar.
 
Já há quem projete uma “recessão técnica” no Brasil, ao fim do primeiro trimestre de 2009. Embora quase ninguém esteja prevendo crescimento abaixo de 5% em 2008, circulam estimativas de expansão zero ou mesmo ligeiramente negativo, no acumulado entre outubro e março de 2009.
 
Esses mesmos estimam uma expansão de 2% ou menos – alguns deles garantem que será para menos – em 2009. O governo ainda trabalha com um crescimento de 4% para 2009 e a maioria das projeções, por enquanto, está convergindo para um intervalo entre 3% e 3,5%. Recessão ou não, de qualquer forma, será um tombo de razoáveis proporções, em relação a 2008.
 
Para não encompridar demais a lenga-lenga, a velha anedota continua servindo melhor para definir a extensão e a profundidade de uma retração econômica do que muitas das mirabolantes equações dos nossos gênios dos modelos e filtros de estimação econômica. A anedota diz assim: você sabe que a economia está em recessão quando seu vizinho fica desempregado e que está em depressão quando você perde o emprego.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: