Desafio de Obama é equilibrar economia e cidadania

José Paulo Kupfer

20 de janeiro de 2009 | 11h33

Cresce a consciência de que, na economia, os desafios de Barack Obama, que assume hoje como o 44º. Presidente americano, vão muito além da já dramática tarefa de recuperar a confiança de consumidores e investidores, a partir da recuperação da saúde do sistema financeiro. Ganhou corpo, no período entre a eleição de Obama e sua posse, a idéia de que a mudança, que serviu de mote na campanha eleitoral do candidato vitorioso, terá de ser posta em prática em versão radical.

Vê-se agora com mais clareza que o problema de relançar a economia não se limita à correção de excessos na desregulamentação no setor financeiro ou à recomposição pontual da capacidade de consumo das pessoas. Será preciso regular melhor, sim. E, também, recorrer de forma agressiva à política fiscal para “limpar” o lixo de papéis podres acumulado nos últimos anos e alargar a renda pessoal disponível, abrindo novos espaços para o consumo. Mas se for apenas isso, as bolhas continuaram a se formar e a furar, levando bilhões de dólares, milhões de empregos e zilhões de esperanças pelo ralo.

Quase quatro décadas de hegemonia do capitalismo neoliberal produziram distorções tão profundas na economia americana, com reflexos tão amplos no resto do mundo, que não bastará injetar dinheiro público nas empresas em dificuldades, salvando o bolso dos investidores, e engolir, também com dinheiro público, parte da dívida impagável dos consumidores.

Superar esse desafio exigirá retomar, em novas bases, mais sincronizadas com o atual mundo da comunicação instantânea e do mercado globalizado, os objetivos fundamentais da política econômica: prover condições para que a produção eficiente de bens e serviços e de modo a que seus frutos promovam o bem-estar e a qualidade de vida do maior número possível de pessoas, sem o que jamais será sustentável.

O domínio neoliberal, sem dúvida, prod uziu riqueza. Mas, por sua natureza estruturalmente concentradora, continha em seu âmago o veneno da própria destruição. A grande expansão do capitalismo, a partir dos anos 70, sob o padrão neoliberal, ancorou-se na redução do custo do capital, tanto para produzir quanto para consumir. Ao produzir concentração de renda e driblar o problema da absorção da produção com o endividamento das famílias, o neoliberalismo chocou o ovo da serpente.

Nas últimas três décadas, nos Estados Unidos, a parcela do lucro do setor financeiro sobre o lucro total, avançou de 10% para cerca de 50%. Mas, no mesmo período, os salários mais altos saltaram de 40 vezes acima da remuneração do trabalhador médio para quase 400 vezes. Um modelo insustentável, como as diversas bolhas que se formaram – e estouraram – nesse meio tempo cansaram de indicar.

Depois de limpar, com uma montanha de dinheiro público, o lixo produzido pela economia neoliberal, Obama terá de encontrar mecanismos eficientes para estimular os empreendedores e inovadores dispostos a se arriscar nas linhas de montagem ou no balcão das lojas.  Ao mesmo tempo, terá de encontrar mecanismos para incentivar uma melhor distribuição da renda produzida, o que inclui uma nova abordagem para os subsídios aos pobres, ao sistema público de saúde e previdência, assim como à representação política dos trabalhadores.

Barack Obama assume com o desafio de armar uma equação em que consumidores e investidores sejam também cidadãos, equilibrando economia e cidadania. É fácil dizer e difícil fazer. Mas – por que não sonhar? -, possível.