Desequilíbrios na indústria

José Paulo Kupfer

05 de fevereiro de 2014 | 09h05

É possível que depois do tombo registrado em dezembro de 2013, a indústria apresente uma recuperação em janeiro de 2014. Projeções realizadas a partir das sondagens industriais da FGV-RJ e da Confederação Nacional de Indústria, combinadas com os indicadores já conhecidos do mês passado, apontam para a uma alta de cerca de 3%, no mês passado. Com isso, a perda de 3,5% em dezembro sobre novembro – o dobro do esperado pelos analistas – seria praticamente neutralizada. De todo modo, a expansão de 1,2% no ano ficou longe de neutralizar as perdas de 2,3% ocorridas em 2012.

O problema é que, com custos elevados e baixa produtividade, a indústria não consegue manter um padrão de crescimento sustentável, ainda que em ritmo moderado, por intervalos mais longos. Alternando períodos curtos de desova de estoques acumulados com ciclos também curtos de aumento na produção, o setor está andando, pouco a pouco, para trás.

Em muitos segmentos — 22 dos 27 pesquisados encolheram em dezembro sobre novembro –, ao fim de 2013, os níveis de produção recuaram para os existentes em 2008 ou 2009, período agudo da crise global, a partir do qual a indústria brasileira começou a derrapar. Os muitos estímulos, de diversas naturezas, oferecidos pelo governo, nos últimos cinco anos, não foram suficientes para tirar a produção da indústria de um permanente sobe e desce.

Além de mostrar um crescimento fraco e sem sustentação, o setor industrial tem se movido numa trajetória desequilibrada. O pequeno crescimento de 2013, por exemplo, se deveu a um avanço maior de dois segmentos – bens de capital e veículos.

A produção de caminhões, praticamente paralisada em 2012, apresentou forte recuperação, no ano passado, o que explica uma parte importante dos melhores momentos da indústria, em 2013. Também há desequilíbrio no ritmo de produção. O começo do ano foi animado, mas ao longo de 2013 o ritmo de produção foi ficando mais lento. A indústria cresceu 2,3%, no primeiro semestre e apenas 0,3%, no segundo.

C0ntinuam fracas as expectativas para 2014, mas o desempenho previsto é um pouco melhor do que o do ano passado. Uma esperada maior desvalorização do real e um igualmente esperado melhor desempenho da economia global sustentam as hipóteses de que serão abertos não só espaços para ampliar exportações de manufaturados, mas também para reocupar mercados tomados, nos últimos anos, por importações.

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