Deu a louca na roleta financeira*

José Paulo Kupfer

24 de janeiro de 2008 | 10h45

Muito se tem discutido, nos últimos dias, sobre o descolamento – ou não – das economias emergentes das turbulências que atingem o mercado financeiro, a partir da perspectiva da entrada da economia americana num ciclo recessivo. Tanto quanto a tese do descolamento jamais se apoiou numa base convincente, a teoria de que uma provável recessão nos EUA arrastará a economia mundial para o mais negro buraco também ainda carece de fundamentos mais sólidos.

Há, porém, um descolamento de que não se fala tanto, mas que, provavelmente, está entre as razões estruturais das turbulências atuais: o descolamento dos estoques de ativos financeiros da economia real. Ainda que a expansão da economia global tenha se acelerado nos últimos anos, nem de longe a produção de bens e serviços tem acompanhado o ritmo de crescimento dos estoques de ativos financeiros.

Se, a partir de 1990, o crescimento dos ativos financeiros vinha sendo vertiginoso, de alguns anos para cá ganhou velocidade alucinante. A distância entre eles e a economia real – a base, em última análise, dos papéis em circulação – só tem feito se alargar – e com uma rapidez estonteante.

Segundo levantamentos do McKinsey Global Institute, divulgados este mês, o volume total de ativos globais – depósitos bancários, títulos de dívida (pública e privada), ações -, que não passava de US$ 12 trilhões em 1980, chegou a US$ 117 trilhões em 2003, escalou para US$ 142 trilhões em 2005 e voou para US$ 167 trilhões em 2006 (último dado disponível). Mantido o mesmo ritmo de crescimento, 2007 terá fechado com um total de US$ 200 trilhões em ativos financeiros.

É notável o aumento da velocidade de acumulação desses ativos. A média anual no período 1980-2003 foi de US$ 4,4 trilhões. Já entre 2003 e 2005, o acréscimo médio por ano chegou a US$ 11 trilhões. De 2005 para 2006, o avanço de US$ 25 trilhões, mais do dobro observado nos três anos anteriores.

Só este acréscimo nos ativos, verificado num único ano, é quase o dobro do volume total de bens e serviços comercializados em 2006. Isso só confirma que o descolamento dos ativos em relação à economia real é um fenômeno em aceleração.

Se, em 1980, produção econômica e soma dos ativos equivaliam, hoje, a diferença já chega a 3,5 vezes. Quando forem fechados os números de 2007, a diferença pode ter alcançado 4 vezes toda a produção anual.

A produção mundial de bens e serviços vai ficando um anão diante do volume de ativos financeiros. O movimento de apenas um mês no mercado financeiro é suficiente para igualar o comércio internacional de bens e serviços de um ano inteiro. Três meses de movimentação financeira cobre a produção mundial anual.

Não é só a velocidade de expansão dos ativos financeiros em relação ao crescimento da economia real que indica haver algo de errado com a economia mundial. Também é notável o desequilíbrio na distribuição dos ativos. Estados Unidos, Europa ocidental, Reino Unido e Japão concentram mais de 80% do total.

A enxurrada de ativos financeiros, impulsionada pela estratégia de fazer jorrar liquidez nos mercados financeiros centrais, em reação às crises de liquidez da segunda metade dos anos 90, produziu duas novidades extremamente preocupantes: 1) estímulo ao apetite de risco, em mercados mais vulneráveis; e 2) o abandono pelos mercados do papel histórico que lhes era reservado no financiamento das economias emergentes. O total das reservas em moeda forte acumuladas pelos emergentes supera em muito suas dívidas externas, indicando que são os emergentes que agora financiam os países ricos, em especial os déficits americanos.

Os soluços que o mercado passou a dar, a partir do início de 2007, com as turbulências na bolsa de Xangai e nas demais bolsas asiáticas, são indicativos de que a produção de liquidez comandada pelo Fed, a partir da crise russa de fins dos anos 90, amplificou os movimentos especulativos e potencializou os desequilíbrios financeiros globais.

Forma-se um consenso a respeito da necessidade de reforçar a supervisão do sistema, que teria sido relaxada ao sabor da inundação de liquidez. Disso não se duvida, mas, provavelmente, será necessário ir mais fundo. Tudo indica que os mercados globais encontram-se diante de novos paradigmas para os quais ainda não há nem teorias explicativas bem estabelecidas, nem estratégias inovadoras adequadas.

A assustadora moral da história é que a bicicleta que passou a ser pedalada com o uso de recursos de curso prazo, tomados a juros baixos e aplicados em ativos de maior risco, ganhou velocidade. Mas ainda não há nada que a faça parar antes de se chocar com o muro, provocando um autêntico crash.

(*) o título já foi usado em texto do autor deste blog sobre o mesmo tema, publicado no blog Econominimo, em março de 2007