Devagar e sempre para baixo

José Paulo Kupfer

17 de novembro de 2011 | 17h57

O IBC-Br, como esperado, confirmou a gradual redução do ritmo de crescimento da economia brasileira em 2011. Segundo esse indicador, que é um antecedente da atividade econômica, calculado mensalmente pelo Banco Central, ocorreu uma retração de 0,32% entre o segundo e o terceiro trimestre do ano.

A curva trimestral do IBC-Br mostra, com clareza, essa perda passo a passo de ritmo. De janeiro a maio de 2011, o indicador avançou 3,94%. No acumulado do ano até junho, cresceu 3,74%, baixando para 3,43%, nos primeiros oito meses do ano e, enfim, para 3,19%, de janeiro a setembro.

Novos recuos no acumulado do ano, mês a mês no quarto trimestre, embora em níveis mais suaves, são esperados pelos departamentos de pesquisas dos bancos e consultorias. No ano civil fechado, a evolução do PIB em 2011 alcançaria um número em torno de 3%.

Até aqui, segundo quase todas as análises, o nível de atividades enfrentou constrangimentos produzidos pela combinação das medidas macroprudenciais do fim de 2010 e a sequência de altas dos juros básicos, promovida pelo BC até junho. Algum impacto do agravamento da crise global, com foco na Europa, pode ter contribuído para a freada do momento, na economia brasileira. Mas o grosso do possível contágio começa a se fazer presente a partir de agora.

Esse contágio ainda não está ocorrendo pelo canal comercial – exportações e importações, mesmo reduzindo o empuxo, continuam subindo – como era a expectativa inicial. Mas o canal da confiança do empresariado já foi devidamente afetado. As sondagens conjunturais mostram mais e mais empresários hesitantes em investir.

Houve, no terceiro trimestre, uma retração no investimento, medido pela FGV-RJ em 0,9%, na comparação com o trimestre anterior. A explicação para o fato é a queda de confiança do empresariado que, de fato, costuma impactar em proporção direta as decisões de investir. A tendência, para o ano fechado, é de redução no investimento sobre o ano passado.

Outro canal pela qual a crise global poderá contaminar a economia brasileira é o do crédito. Os temores prolongados de contração da economia internacional, com riscos para o sistema bancário, produzem um paulatino empoçado dos recursos nos bancos. Assim, não só a demanda por crédito, via indecisão dos investidores e empresários, tende a se reduzir como também a oferta, pelo aumento da cautela dos bancos, já expostos a perdas potenciais, tende a comprimir.

Não há sinais nem de perto, no mercado doméstico, de um colapso nas fontes de crédito, a exemplo do que ocorreu na virada de 2008 para 2009. Mas já é possível ouvir relatos de que a concessão de crédito já anda mais difícil, sobretudo para os tomadores menores e, em especial, em instituições menores.

O governo – aí incluído o BC – tem dado sinais e já vem anunciando medidas para aliviar essas pressões ainda pouco visíveis a olho nu. Deve-se esperar, pelo andar da carruagem da atividade econômica, que continue ativamente afrouxando as condições macroeconômica que, atualmente, ajudam a derrubar a economia.

 

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