Dinheiro em penca

José Paulo Kupfer

05 de junho de 2008 | 21h44

Na nota abaixo ((“A economia hoje e no tempo em que os animais falavam”), comentei a mudança no modo de encarar os fenômenos econômicos, nesses tempos de hegemonia do mercado financeiro sobre a economia real. Um artigo do economista Ilan Goldfajn, publicado terça-feira, no “O Globo” e no “Estado”, serviu de gancho.

Daí, o leitor MAG escreveu, hoje, a respeito daquele texto, o seguinte comentário:

PARADOXO DE GIFFEN (economista inglês): verificou que quando os preços do trigo subiam a demanda aumentava (em compensação, a demanda de carne caía). O trigo por ser o alimento mais barato aumentava o consumo em detrimento da carne mais cara.

O DÓLAR, POR SER A MOEDA RESERVA MUNDIAL, justificou o escrito do Ilan. As expectativas negativas quanto à moeda reserva mundial motivam o entesouramento em commodities (é uma tese da turma de Harvard). O aumento dos preços das commodities e a desvalorização do dólar justificam e explicam.

* * *

MAG, um debatedor insistente e educado, monetarista radical, respondia a outro leitor aqui do blog, Lucinei, também participante e educado, mas com olhar claramente social. Gostei da idéia e também resolvi meter a colher no debate:

MAG, meu velho, adorei a idéia de que a moeda é um bem de giffen. A gente sabia que o conceito (bens que, quando aumentam de preço, registram aumento de demanda) valia para mercadorias, para bens de consumo. Tanto que o exemplo clássico é o do pão. Mas para moeda, que como bem de consumo seria altamente indisgesta, convenhamos, é forte…

Giffen, Sir Robert Giffen, como os estudantes dos primeiros anos do curso de economia e os leitores da Wikipedia sabem, foi um estatístico e economista inglês, da segunda metade do século XIX, de viés neoclássico. Os bens que levam seu nome foram assim apelidados por Alfred Marshall, grande economista inglês da mesma época e um ícone do neoclassicismo econômico.

Os bens de Giffen são casos especiais de bens inferiores – aqueles que são substituídos por outros melhores quando a renda do consumidor aumenta. Como tudo em economia, o conceito de bem inferior é um conceito relativo. Um bem, digamos, normal hoje pode virar inferior amanhã. Um exemplo que nos ensinam na faculdade é o das tevês em preto e branco, na transição para os aparelhos em cor, muito caros, nos primeiros tempos. Assim que a renda permitia (ou o preço baixava), o consumidor abandonava as telas em pb.

Você, pelo visto, olha para as moedas como mercadoria, coisa física. É claro que você não está se referindo ao valor do metal de que é feita a moeda ou do papel e da tinta com os quais são feitas as notas que expressam moedas. Então, a sua idéia de que moeda é um bem de giffen, além de ser uma ótima boutade, é uma dramática metáfora da financeirazação absurda por que passa o capitalismo contemporâneo.

OK, você pegou o mote pela função de reserva de valor das moedas. Seu ponto é fácil de entender: quanto mais valorizada uma determinada moeda, mais aumenta a demanda por ela. A moeda, em sua função como reserva de valor, se encaixaria na definição de bem de giffen – repetindo, aquele que é mais consumido quando seu preço aumenta. Só que, na função de reserva de valor, a moeda não é mercadoria – é algo peculiar, específico. O Gustavo Franco, quando queria defender o câmbio fixo, nos idos dos anos 90, comparava o real com bananas. Sabemos o abacaxi que isso deu.

De todo modo, prometo a você que, da próxima vez que eu for à feira, vou procurar uma barraca que venda moedas. Vou mais tarde, já perto do fim da feira, porque, assim, talvez até consiga alguma promoção de baciada. Aproveito para passar na barraca ao lado e levar algumas bananas.

Forte abraço.

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