Dívida bruta: de coadjuvante ao centro do palco

José Paulo Kupfer

21 de maio de 2010 | 11h30

Coadjuvante antes desprezada no rol dos indicadores macroeconômicos acompanhados pelo mercado, a dívida bruta do governo vem, recentemente, ganhando os holofotes. Ainda que os alertas recentes pudessem ser mais moderados, não deixa de ser uma preocupação legítima.

Enquanto as projeções para a dívida líquida do setor público, o indicador destronado, registram recuo, a trajetória da dívida bruta mostra uma escalada. Seu montante projetado para 2010 equivale a 65% do PIB, quase 15 pontos acima do verificado em 2000.

Comparada com o resto do mundo, a dívida bruta brasileira se situa numa zona de relativo conforto. Está longe das dívidas das maiores economias ocidentais, mas supera a de outros emergentes.

O dinheiro repassado pelo Tesouro aos bancos oficiais, sobretudo o BNDES, resulta em subsídio para os tomadores dos empréstimos, pois o Tesouro toma os recursos a um custo maior do que o banco repassa às empresas.

Mas, no fim das contas, com a ampliação de sua carteira de empréstimos, os bancos lucram mais e devolvem ao governo uma fatia mais gorda de dividendos, ajudando a melhorar o saldo das contas públicas.

Críticos da política fiscal do governo denunciam a manobra – trata-se, de fato, de uma “compra” de dívida para engordar o caixa. Mas a crítica nem sempre desconta o efeito dos financiamentos na viabilização de investimentos em infraestrutura e capacidade produtiva.

Os críticos também ficam devendo a explicação de por que só agora bateram o olho nos perigos da dívida bruta. Afinal, nos últimos cinco anos, por causa da acumulação de volumosas reservas cambiais, ela já vinha em nítida trajetória de alta. Difícil negar os benefícios dessa política, mas a acumulação de reservas, como no caso dos bancos, também é uma “compra” de dólares (e de dívida) a um custo mais alto do que o obtido com sua aplicação.

 

Publicado no caderno Economia e Negócios do Estado de S.Paulo, em 21/05/2010

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