Do otimismo à impaciência

José Paulo Kupfer

04 de agosto de 2016 | 10h51

É tênue a linha que separa o otimismo com o governo do presidente em exercício Michel Temer da impaciência com ausência de ações práticas — ou de ações na contramão da retórica governista. O otimismo se baseia nas declarações e juras de austeridade fiscal, a partir de um programa de reformas estruturais, que inclui ajuste de gastos públicos à receita de impostos e contribuições. A impaciência se nutre, entre outros, das concessões de aumentos salariais a servidores públicos e das hesitações no estabelecimento de contrapartidas firmes de contenção de despesas, da parte dos governos estaduais, na negociação de alívio para suas dívidas.

Curiosamente, o vento do otimismo começou a virar na direção da impaciência com a divulgação da ata da reunião de julho do novo Comitê de Política Monetária (Copom), presidido pelo economista Ilan Goldfajn, nomeado por Temer.  Ao manter, por unanimidade, a taxa básica de juros nos mesmos 14,25% em que se encontra há um ano, o comitê indicou que uma das razões para isso eram incertezas sobre a efetividade do ajuste fiscal prometido pelo governo.

A sinceridade exposta na ata pareceu ter o efeito de uma ducha sobre expectativas. A partir daí, por coincidência ou não, passaram a se acumular dúvidas em relação à velocidade e à profundidade do programa de ajuste e apoiadores de primeira hora do governo interino começaram a demonstrar um crescente incômodo.

Esse incômodo aumentou com o lançamento supostamente precoce da candidatura de Temer às eleições presidenciais de 2018 pelo novo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). A negativa de Temer, por meio de uma nota, foi rápida, mas também frouxa.

A economista Monica de Bolle, em sua coluna desta quarta-feira, no Estadão, resumiu o desconforto: “entre acertos e boa retórica, o pulso firme enfraqueceu”, escreveu ela. “Enfraqueceu ante a constatação de que a política é a mesma, os políticos os mesmos — inclusive o próprio presidente interino”.

Um dos economistas mais otimistas com as perspectivas da economia com o novo governo, José Roberto Mendonça de Barros, da consultoria MB Associados, em reportagem publicada também nesta quarta, no Estado, classificou como “desconfortável” a falta de sintonia detectada nas relações do Congresso com o Executivo. “A sinalização agora é a de que Temer e sua equipe econômica, por melhor que seja, podem reproduzir o mesmo enredo visto com Dilma e Levy”, detalhou Samuel Pessôa, pesquisador do Ibre-FGV/RJ, na mesma reportagem, referindo-se a medidas de ajuste fiscal enviadas pelo então ministro da Fazenda Joaquim Levy ao Legislativo, que acabaram desfiguradas no Congresso.

Enquanto os integrantes da equipe econômica permanecem mudos, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, insiste que não está ocorrendo desvirtuamento das propostas de ajuste fiscal. Segundo ele, o que importa é a fixação do teto de gastos e seu congelamento em termos reais. Enquanto reafirma que esse critério continua valendo para todos, inclusive os estados, Meirelles sinaliza — ou ameaça — com aumentos de impostos, caso o Congresso resista a abraçar o ajuste proposto.

Resta conferir se a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do teto de gastos vai passar no Congresso como quer Meirelles. A conclusão de Mendonça de Barros, “se não passar como precisa ser, com substância, de verdade” se resume numa palavra: “desastre”.

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