Dois dígitos não duram, mas queda da inflação será lenta

José Paulo Kupfer

09 de dezembro de 2015 | 16h05

A inflação chegou finalmente nos dois dígitos. Porém, de acordo com projeções atualizadas, não deve permanecer por muito tempo nesse nível, que remonta a uma já relativamente distante primeira metade da década de 2000. As previsões são de que vai fechar 2015 em torno de 11%, mas, se essas hipóteses estiverem corretas, descerá para algum ponto no limite de um dígito já ao fim do primeiro trimestre de 2016. As projeções incluem a hipótese da adoção em breve da Cide para combustíveis. 

Choques fortes na oferta de alimentos in natura explicam a inflação acima das expectativas em novembro. O item respondeu por 40% da elevação do IPCA do mês passado. Efeitos residuais das últimas altas nos preços dos combustíveis foram responsáveis por outros 25% da alta do mês. Alimentos e transportes ainda devem predominar na variação da inflação neste último mês do ano, prevista em 1% pelos analistas.

Excessos nas desvalorizações cambiais e nos reajustes de preços administrados, registrados em 2015, saíram do radar para 2016 e só isso pode subtrair até uns 3 pontos do pico previstos para dezembro deste ano no resultado final de 2016, previsto para ficar entre 7% e 8% quando o ano se encerrar. Por aí se vê que a atual dinâmica das altas de preços permanecerá com poucas alterações nos próximos meses. Por isso mesmo, a convergência da inflação para o centro da meta tende a ser lenta, ainda que em doses regulares.

O pressuposto de que a recessão prolongada, com a consequente contração da renda — provocada pelo aumento do desemprego, das restrição de crédito e a inadimplência —, tende a baixar a fervura da alta de preços pelo encolhimento da demanda, é verdadeiro. Mas o movimento pode levar mais tempo do que o esperado e não é necessariamente linear, sobretudo no setor de serviços.

A inflação do setor de vestuário, por exemplo, tem andado em torno de 5%, enquanto a alta dos preços no segmento de serviços de costura sobe a 15%. Significa que consumidores podem estar substituindo a compra de roupas novas por consertos e reformas de antigas. Também em setores em que a oferta se encontre superdimensionada, a queda da demanda pode resultar em fechamento de concorrentes, mas não em queda de preços, uma vez que os remanescentes até teriam espaço para aumentar preços, em razão da redução da concorrência.