Dólar: BC sai do sono, mas pressão continua

José Paulo Kupfer

30 Agosto 2018 | 16h46

A cotação do dólar passou de R$ 4,20, no início da tarde desta quinta-feira, e tirou o Banco Central do silêncio e da inação que mantinha no mercado cambial há mais de dois meses — a última intervenção, quando o dólar valia R$ 3,78, ocorreu em 22 de junho. Ainda assim entrou leve, colocando US$ 1,5 bilhão em swaps cambiais. Uma gota no oceano comparada com as ofertas de dólares de maio e junho que, no conjunto, somaram mais de mais de US$ 40 bilhões.

Quase imediatamente a cotação recuou para R$ 4,14, mas a pressão voltou com o dólar subindo a R$ 4,16. Serão necessárias novas intervenções bem mais pesadas, se o BC entender que deve evitar volatilidade em grau elevado, nos próximos dias. Até agora, porém, a autoridade monetária parece hesitar em ingressar nessa arena.

Na nota em que anunciou a intervenção do início da tarde, o BC apenas reafirmou os princípios que regem sua atuação no mercado de câmbio, relembrando a sua separação da política monetária (juros básicos). Nenhum sinal de passos à frente, muito menos mensagens, diferentemente das transmitidas em maio/junho, de que não haveria limites para a oferta de dólares, sob a forma de swaps cambiais.

O ambiente externo está pesado, com a Argentina enfrentando um início de corrida. O dólar, em Buenos Aires, passou de 41 pesos, alta de 20% em um dia. Na sequência, o Banco Central elevou a taxa de juros de 45% para 60% ao ano e ofereceu dólares ao mercado. O câmbio cedeu, mas as pressões continuam. No ano, a moeda argentina já desvalorizou 50%, superando a lira turca, cujas perdas ante o dólar desde janeiro estão em 45%.

Melhor, mas nem tantoo, o real brasileiro aparece no terceiro lugar da fila de moedas emergentes mais desvalorizadas contra o dólar. Em 2018, até aqui, as perdas superam 20%. Além do ambiente externo desfavorável, as incertezas domésticas com as eleições e as dúvidas em relação às medidas para tirar a economia brasileiro a serem adotadas pelo presidente a ser eleito contribuem para empurrar as taxas de câmbio para cima.

A economia quase arrastando dificulta a transmissão da alta do dólar para a inflação, mas altas de preços, não por coincidência em produtos que embutem matérias-primas importadas, já estão sendo sentidas. Embora ainda insuficientes para exigir ação mais firma do BC, esses sinais negativos começam a inquietar o pessoal do mercado financeiro. Insinuações sobre a necessidade de retomar altas nos juros básicos têm surgido com mais frequência, numa demonstração de que nem todos entendem o regime de metas de inflação ou, pior, no fundo não confiam em seus poderes estabilizadores.