Dólar quente, cabeça fria

José Paulo Kupfer

21 de agosto de 2013 | 11h24

No ambiente de amplas incertezas que, no momento, envolvem o mercado cambial só uma coisa é certa: quem não é do ramo e tem juízo não entra em campo. Na sucessão de batalhas cambiais diárias, com o governo, pelas ações do Banco Central, operando intensamente, ninguém é capaz de garantir estar de posse do roteiro do que acontecerá com as cotações do dólar. Quem aparecer com algum mapa da mina estará vendendo gato por lebre.

Os economistas mais experientes sabem que o exercício de tentar adivinhar a trajetória das cotações no mercado de câmbio foi inventado para humilhá-los – alguns dirão que essas tentativas, sempre mal sucedidas, têm a grande utilidade de repor uma mercadoria em geral escassa entre eles, a humildade.

Considerando as tendências “normais” de mercado, o caminho do dólar é de alta ante o real. Isso se deve a pelo menos dois movimentos principais:

1) A perspectiva cada vez mais concreta – e cada vez mais próxima – do início do processo de reversão das injeções de dólares no mercado financeiro americano pelo Federal Reserve (o banco central de lá), o que levaria a uma inevitável alta nos juros dos “Treasuries”, títulos públicos emitidos pelo Tesouro americano. Juros maiores atraem investidores e, quando se trata do mercado americano, o maior e mais importante do planeta, os recursos espalhados pelo mercado financeiro global tendem a migrar para os Estados Unidos, como nuvens de gafanhotos.

Esse movimento atinge todos os mercados pelo mundo e, entre as economias emergentes, exceto a China, que controla as entradas e saídas de moeda, e afeta particularmente o Brasil que, entre os grandes emergentes, está entre os de maior e mais profundo mercado em moedas estrangeiras.

2) A deterioração das contas externas brasileiras, com a redução dos saldos positivos na balança comercial (aumentos das importações, perda de receitas de exportação com queda nas cotações de commodities no mercado internacional e baixa competitividade dos produtos manufaturados brasileiros) e a ampliação dos déficits em conta corrente. O encolhimento dos fluxos de investimentos diretos externos (IDE) para o Brasil, que antes cobriam todo o déficit corrente – e este ano deverão cobrir 80% do total – ajuda a fragilizar a posição brasileira.

A questão é que não há mercado cambial “normal”, porque, além de fatores políticos, de difícil antecipação, os BCs podem atuar – e atuam –, refreando tendências. Assim, prever os vaivéns do mercado cambial é, em resumo, tarefa para profetas.

Diante desse quadro, a sugestão dos especialistas, normalmente transmitida às pessoas físicas de olho no mercado cambial, é conhecida – e muito válida: dólar não é investimento e só é caso de comprá-lo em caso de necessidade – viagens, eventuais dívidas, coisas assim.

Nos momentos de alta volatilidade, como agora, em que a tendência é mais de alta do que de baixa, quem for viajar ou tiver dívida em dólar com vencimento em prazo curto, deve investir na compra da moeda. E, ao viajar, preferir carregar cartões pré-pagos, em lugar de pagar as despesas e compras com o cartão de crédito.  Os outros devem colocar os nervos na geladeira e aguardar fora das quatro linhas do mercado.

 

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