Renda extra

Fabrizio Gueratto: 8 maneiras de ganhar até R$ 4 mil por mês

Doping na maratona financeira

José Paulo Kupfer

22 de agosto de 2008 | 23h35

por Fernando Blanco*

Lamentavelmente, virou moda no mundo dos esportes o uso de drogas anabolizantes e estimulantes. Como alta performance e recordes trazem muito dinheiro para atletas (e para toda ‘cadeia alimentar’…ou será ‘vampiresca’?), estes passaram a se dopar no intuito de obter melhores marcas, no mais curto período de tempo. Desta forma, mesmo atletas medíocres passaram a colher resultados antes jamais sonhados.

Analogamente, fenômeno similar  se deu com a economia americana: consumista por excelência, esta acabou por se viciar em crédito para poder continuar comprando freneticamente, mesmo sem recursos econômicos para tal. O crédito tornou-se, para muitos, uma espécie de anabolizante creditício, que viabiliza o consumo antecipado e/ou exagerado de agentes econômicos desprovidos de liquidez para tal.

Assim como esportistas medíocres se tornam, temporariamente, campeões, economias que deveriam crescer a 0% ao ano acabam crescendo a 2 ou 3%. Cidadãos que poderiam trocar de carro a cada quatro anos, o fazem em dois. Ou quem deveria andar de ônibus e guardar dinheiro para momentos de crise, compra um carro financiado e fica sem dinheiro para consertá-lo quando quebrar.
As tão faladas “bolhas” são infladas pela entrada maciça de recursos (financiados por bancos e fundos) e que valorizam um determinado ativo em um determinado país. Foi assim na crise do subprime americano e em todas as demais.

E no Brasil, estamos livres desta praga no momento (e do momento)? A boa notícia é que aqui não existe crédito abundante e barato a ponto de podermos estruturar ativos exóticos como fizeram os americanos. Lá, estão até hoje contabilizando perdas bilionárias e ninguém (!) sabe até onde isto vai chegar. Mas atenção, o menor dos problemas está no fato de investidores e bancos gananciosos terem perdido fortunas. O drama americano, que contaminou o planeta, está na crise sistêmica de confiança que hoje impacta diretamente a capacidade do sistema de prover crédito ao cidadão e ao empresário. É como se tirassem o anabolizante do atleta antes da prova: além da crise de abstinência (questão puramente química), ele terá uma performance medíocre. É isto que está acontecendo com os americanos – e tende a piorar.

Voltando ao Brasil, aqui também temos uma ‘bolhinha’ e ela se concentra no consumo das famílias. Note-se que o volume de crédito na economia subiu de 22% para 36% do PIB no governo Lula. Foi bom? Foi, pois o país cresceu e em boa parte foi graças a isso. Mas cresceu rápido demais. Estou convencido de que deram esteróide anabolizante creditício para muita gente! Não que os tais 36%, em termos absolutos, sejam muito crédito – e não o é em país algum do mundo: é pouco! O organizado e estável Chile vive muito bem com 60% do PIB – e lá ninguém reclama de falta de crédito ou se preocupa com risco sistêmico algum.

Os neo-endividados – a qualidade da educação brasileira, todos sabemos, é sofrível. Como conseqüência, temos um igualmente desolador quadro de (falta de) educação financeira, que deságua na mais trágica ausência de conhecimentos sobre a dinâmica e a gestão do crédito em nosso país. E a coisa não se limita à diarista, ao porteiro do prédio ou ao taxista, não! A coisa se espalha nos meios empresariais, com especial destaque para os simpáticos, necessários e elogiáveis empreendedores. Estes se endividam mal, pagam mais juros do que precisavam pagar e vivem sob crônica e incômoda sensação de baixa liquidez.

Existe um grande número de indivíduos e empresários que nunca havia tomado crédito para valer. Com a oferta escancarada, foram seduzidos a se endividar por prazos longos e, pior, com alto comprometimento da renda. Estes são os neo-endividados: um pessoal bem intencionado, mas mal preparado para lidar com os riscos e as dores de cabeça que o endividamento traz.

Chegamos a esse quadro aqui no Brasil porque emprestadores e tomadores partiram de um pressuposto errado: o de que o Brasil era/é/continuará blindado contra as mazelas americanas. Ledo engano. Num capitalismo globalizado ao extremo, parece-me ingenuidade imaginar que com os grandes mercados consumidores do mundo – EUA e União Européia – à beira da recessão, mais China e Índia cheios de desequilíbrios internos, a começar pela inflação, o Brasil sairá ileso desta tormenta. Isto posto, quando a economia desaquecer por aqui, o desemprego aumentará, a renda real do trabalhador diminuirá, o crédito estará caro (ou sempre foi?) e mais escasso porque a inadimplência também terá aumentado.

Assim como o doping esportivo convencional leva a resultados desastrosos no médio-prazo (caso das punições esportivas, multas, fim de carreira e diversos tipos de câncer para aqueles que exageram na dose), o excesso de crédito também pode arruinar a vida de indivíduos, empresas e países.
Como sugerimos antes, os EUA foram pegos no exame antidoping nas ‘Olimpíadas Econômicas’. E se lá a situação é dramática por ser sistêmica, aqui o doping creditício também fará estrago, só que num grupo mais segmentado, majoritariamente formado por neo-endividados.

A dúvida é quando isso acontecerá e não se acontecerá.

(*) Presidente da subsidiária brasileira da seguradora de créditos comerciais francesa Coface e autor do blog http://blogdocredito.wordpress.com

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.