Dormindo com a inflação

José Paulo Kupfer

07 de setembro de 2011 | 22h58

Conviver, driblar e sobreviver à inflação é uma característica do cotidiano brasileiro – sabemos bem disso pelo menos desde que índices de preços passaram a ser calculados, há seis décadas e meia, nos idos de 1944. Nesse longo período, eles nunca foram menores do que 4% ao ano, com duas exceções – 1,66%, em 1998, e 3,14%, em 2006.

A convivência com a inflação – e, em boa parte desse período, com a hiperinflação – tumultuou a vida do País e das pessoas. Entre 1980, quando a inflação fechou o ano em 99,27%, e fim de 1993, com a variação de preços galgando as alturas de 2.477,15%, o Brasil foi sacudido por nove planos de estabilização, 15 políticas salariais, 19 modificações das regras cambiais, 22 propostas de negociação da dívida externa e 20 programas de ajuste fiscal.

Não foi por coincidência, portanto, que neste período que antecedeu o Plano Real, era impossível planejar a economia – inclusive a doméstica. Também não por coincidência, o último plano de desenvolvimento, com começo, meio e fim, foi o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), da década de 70. Mas o projeto que permitiu a formação da infraestrutura que sustentou o avanço e diversificação, aos trancos e barrancos, da indústria brasileira, contribuiu para derramar mais gasolina na fogueira inflacionária – como, aliás, já o fizera, em momento anterior de progresso econômico, o Plano de Metas e a construção de Brasília, em fins dos anos 50.

Viver a 200, 300, 900, 2000 por cento ao ano de inflação era para malabaristas em tempo integral. Lidar com uma inflação de 35% ao mês, com um pico de mais de 80% num único intervalo de 30 dias, como em março de 1990, fim do governo Sarney e início da mais ensandecida experiência antiinflacionária – o Plano Collor –, exigia a aplicação de expedientes, embora racionais, fora dos manuais. O imediatismo e a propensão ao curto prazo, que, historicamente, moldou o comportamento social num Brasil que nasceu colônia de exploração de recursos naturais, consolidaram-se no ambiente inflacionário.

Como enfrentar uma inflação de 1% a 2% ao dia sem correrias? Aos que tinham acesso às aplicações financeiras nos bancos, bem poucos, diga-se, se comparados com hoje, a defesa do valor do dinheiro era trabalhosa e incerta. Nos tempos da correção monetária, que ao longo do tempo foi se generalizando e substituindo a expressão vernacular pelo anglicismo indexação, a regra era a de que perdia menos quem corrigia mais rápido seus rendimentos.

Mas e quem não tinha essa possibilidade? A solução, racional, também era correr – no caso correr para as compras, estocar comida, antecipar mudanças no guardarroupa e nos itens duráveis de conforto doméstico. E tome filas quilométricas nos caixas dos supermercados, até o quinto dia útil do mês, quando saía o salário. Uma cena é típica desse tempo não tão distante: carrinhos e mais carrinhos abarrotados, famílias inteiras na azafama de driblar as maquininhas remarcadoras de preços.

No comércio de bens duráveis de valor unitário mais alto, caso, por exemplo, dos automóveis, a hiperinflação ditava até o marketing. Enquanto a indexação não vazou para mensal – e depois diária, com a Unidade Real de Valor (URV), que antecipou o Plano Real –, o terceiro mês do trimestre era de vendas gordas, mais do que o primeiro do trimestre seguinte e muito mais do que no segundo mês do trimestre. Os consumidores aproveitavam as ofertas – talvez fosse melhor dizer as ameaças – dos varejistas, que anunciavam reajustes nos preços, com a virada da correção monetária. Nos meses seguintes, como nos últimos 20 dias do mês nos supermercados, lojas às moscas.

Observado com os olhos de hoje, o tempo da indexação generalizada, que produziu um tipo de inflação verde-e-amarela – a inflação inercial, aquela em que os preços subiam hoje simplesmente porque tinham aumentado ontem – parece meio amalucado. Mas, com a hiperinflação persistente, não há nenhuma lógica na loucura em que a vida se passa. No Brasil das altíssimas inflações, por exemplo, carro usado já custou mais caro do que carro novo.

Foi no Plano Cruzado, de 1986, que congelou e tabelou todos os preços. Os carros novos, com preços tabelados, sumiram das lojas, ao mesmo tempo em que os usados, principalmente os com baixa quilometragem e pouco uso, sofriam fortíssima pressão de demanda, que elevava seus preços acima da tabela dos O Km, na prática inexistentes. Não podia dar certo – e não deu. No ano seguinte ao Plano Cruzado, com o Plano Cruzado II, a inflação fecharia em 367% e, em 1988, escalaria para perto de 1.000%.

Nesse mesmo Brasil da hiperinflação, os brasileiros foram cobaias de um laboratório social inusitado. Acordaram, no dia 16 de março de 1990, uma sexta-feira, com apenas Cr$ 50 (cruzeiros) livres em suas contas bancárias. Era o Plano Brasil Novo, que entrou para a História como Plano Collor, que aprisionou em contas de cruzados novos, a moeda substituída no dia anterior, todos os depósitos e aplicações financeiras. Pressões variadas, contudo, fizeram o governo abrir “torneirinhas” por onde vazou, pouco a pouco, o dinheiro represado. Ao deixar a Presidência, num processo de impeachment, em outubro de 1992, dois anos e meio depois da posse e do Plano que leva seu nome, Fernando Collor também deixou a economia em recessão e a inflação anual em 1.620%.

Controlada a inflação, com o Plano Real, em 1994, o Brasil reencontrou o caminho do crescimento e, com a possibilidade de aplicar políticas sociais mais eficazes, avançou na melhoria da distribuição de renda e da inclusão social. Mesmo uma década e meia depois, porém, ainda falta muito para desfazer e reverter todos os entraves e distorções produzidos pela hiperinflação. E que, por sua natureza altamente regressiva, colocou-a na linha de frente dos elementos que transformaram o País num sombrio campeão de desigualdades.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.