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Dr. Olavo, um conservador moderno

José Paulo Kupfer

27 de agosto de 2008 | 12h40

Morreu, hoje de manhã, o banqueiro Olavo Setubal, o grande empreendedor do grupo Itaúsa – Banco Itaú, Deca, Duratex, Itautec. Estava com 85 anos.

Olavo Setubal foi um dos protagonistas históricos da formação do sistema bancário brasileiro – uma estrutura operacional e tecnológica incomparável no mundo.  Engenheiro de origem, o dr. Olavo (todos o tratavam, no contato pessoal, como dr. Olavo, mas se referiam a ele como “Olavão”, menos pelo corpanzil do que pela voz de baixo profundo e a fala arrastada), fundou e consolidou também um grande e em geral eficiente conglomerado industrial, com empresas pioneiras e líderes em áreas tradicionais, como a construção civil e química, e modernas, como a informática.

Olavo Setubal fez parte daquele grupo, hoje raro no Brasil, de empreendedores privados com espírito público. É da estirpe de Roberto Simonsen, Horácio Lafer e Walter Moreira Salles. Prefeito nomeado de São Paulo, foi ministro das Relações Exteriores, nos primeiros tempos do governo José Sarney, e chegou a disputar indicação pelo então PFL ao governo paulista.

Da minha convivência com o dr. Olavo ficou a marca de uma inteligência aguda e a convicção de que podem existir, como ele, conservadores modernos. Nunca esqueci uma conversa com o dr. Olavo, em seu gabinete de prefeito, ainda no Parque do Ibirapuera, na época em que o general João Figueiredo, já indicado à Presidência da República, montava seu ministério.

Faz quase 30 anos, comecinho de 1979. Eu era subeditor de economia da Veja, e fui conversar com o dr. Olavo, juntamente com o jornalista Paulo Sotero, então da editoria de Brasil da revista, justamente sobre a montagem do ministério. Não era uma conversa para publicar, mas para obter informações e entender a movimentação do momento.

Depois de falar um pouco, fazer umas análises meio genéricas e algumas (poucas) conjecturas, ele nos surpreendeu:

– Eu já falei demais. Agora me contem o que estão falando de mim para esse ministério

Desconversei:

– Que é isso, dr. Olavo? A gente veio aqui para ouvir, não para falar. E também não sabemos nada. Por isso mesmo é que viemos procurá-lo.

O dr. Olavo tanto insistiu que, meio constrangido, tentei uma saída::

– Bem, o que se comenta é que o senhor pode ser convidado para o Banco Central.

A resposta veio imediata:

– Isso não interessa. Banco por banco, prefiro o meu.

Sem dizer, era claro que o interesse do dr. Olavo era o ministério da Fazenda. Por isso, ele insistiu:

– Vamos lá, vocês estão escondendo o jogo. O que tem para mim?

Emparedado, abri minha opinião:

– Dr. Olavo, o que eu acho é que os seus colegas banqueiros não querem o senhor no ministério da Fazenda.

Ele deu um suspiro e soltou a frase que nunca esqueci:

– Você tem razão. É isso mesmo. Eles desconfiam de mim porque eu acredito na luta de classes. Nem esperam que eu termine o pensamento. Porque eu acredito na luta de classes, sim, mas acho que é o nosso lado que vai ganhar!

Como o Príncipe de Salinas, de “O Leopardo”, o dr. Olavo sabia que as transformações sociais são inevitáveis. Como Tancredi, o sobrinho de Salinas, achava que era preciso levar em conta o “outro lado”  – e mudar, para as coisas ficarem na mesma.

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