É honesto reconhecer a parte do governo na recuperação da economia

José Paulo Kupfer

10 de setembro de 2009 | 19h12

O IBGE divulga nesta sexta-feira de manhã os números do Produto Interno Bruto (PIB) do 2º trimestre de 2009. Tudo indica que o Brasil saiu da chamada recessão técnica – uma convenção econômica meio boba e sem efeito prático algum, caracterizada por dois trimestres seguidos de retração.

Analistas projetam uma expansão entre 1,2% e 2,2% em relação ao primeiro trimestre do ano. Convergem para um valor nas vizinhanças de 1,8%. Em relação ao segundo trimestre do ano passado, o resultado ainda será negativo (um recuo nas vizinhanças de 1,5%). Mas, já no terceiro trimestre, os números estarão todos no azul. No fim das contas, restam poucos analistas com projeções para 2009 na faixa negativa.

É uma façanha. Principalmente quando se observa o resto do mundo e, mais ainda, ao lembrar das previsões anunciadas quando a economia afundou 3,6%, no último trimestre de 2008. Houve quem estimasse, para o ano que começava, quedas de até 4%.

Até o mais ranheta dos analistas, caso não esteja contaminado pelo vírus da ideologia e do partidarismo, concordará que a reação do governo à crise foi decisiva para esse resultado surpreendente e auspicioso.

Como a memória é fraca e o uso político dessa fragilidade é pesado, serão muitos os que argumentarão que o governo não fez nada – apenas se deixou levar numa maré de sorte, lastreado nas grandes conquistas proporcionadas pelo governo anterior. Isso, a bem da justiça, é uma grossa e tosca inverdade.

Ainda que reagindo com atraso – chegou a aumentar os juros básicos em outubro –, o Banco Central evitou uma crise de crédito ainda mais profunda. Liberou reservas para financiar exportadores, reduziu compulsórios para irrigar bancos pequenos e médios e, enfim, cortou 5 pontos percentuais na taxa Selic.

Por decisão do governo, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal abriram as torneiras do crédito – anêmico nos bancos privados. Há quem diga que a estratégia, vital para evitar uma escassez desastrosa de crédito, no futuro, cobrará a conta de uma volumosa inadimplência. Mas, até onde se pode enxergar, isso cheira mais a torcida contra do que avaliação embasada em fatos.

Na área fiscal, a desoneração de impostos para a compra de material de construção, automóveis e eletrodomésticos animou os consumidores e garantiu um ritmo razoável de produção. Não à toa, o setor automotivo brasileiro virou case internacional, com vendas recordes mês a mês, apesar da grave crise. Na construção civil, um novo e amplo programa de financiamento de habitação e estímulo setorial (“Minha casa, minha vida”) nasceu dando certo numa das faixas de renda (de três a dez salários mínimos), embora ainda patine na faixa mais baixa.

Não houve descontrole de inflação – e pressões de preços, se houver, ficarão para 2010, a depender do tipo de aquecimento pelo qual passará a economia. Apesar dos faniquitos dos descabelados da área fiscal, também não houve descontrole das contas públicas e a tendência é de acomodação. A primeira onda da crise passou e com menos dores, mas, mesmo assim, não dá para apostar que não haverá problemas mais na frente, até por conta das incertezas quanto à evolução da economia mundial.

Não foi, enfim, uma marolinha. Mas, está mais do que claro, ficou muito longe de um tsunami. Manda a honestidade reconhecer que o governo tem parte positiva nessa história até aqui feliz.

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