Efeito manada com sinal trocado

José Paulo Kupfer

05 de junho de 2009 | 12h12

O fluxo financeiro de dólares, em maio, registrou superávit acima de US$ 1,5 bilhão. Os investimentos estrangeiros diretos (IED) e as aplicações de estrangeiros na Bolsa de Valores contribuíram, quase meio a meio, para o resultado. O IED alcançou US$ 2,75 bilhões e as aplicações no mercado acionário, US$ 2,5 bilhões. O volume de IED ingressado em maio é menor do que o de abril (US$ 3,4 bilhões). Mas o volume de dólares dirigido à bolsa deu um salto e, na comparação com abril, quase quadruplicou em maio. A movimentação continua forte em junho.

Parece estar em curso um efeito manada com sinal invertido. As consequências do efeito manada que leva os dólares embora quando irrompe uma crise doméstica ou externa, na volta do parafuso, são praticamente as mesmas que operam no sentimento inverso, quando o efeito manada ocorre de fora para dentro.

A diferença é que, no primeiro caso, a instabilidade é imediata e as medidas heróicas, para evitar uma explosão, quase automáticas. No segundo, a instabilidade é uma crônica anunciada, com explosão sem hora marcada, mas inevitável, em algum ponto do futuro. Lamentavelmente, as providências para abortar a trajetória desestabilizadora também ficam para depois.

Será que, no caso do fluxo de dólares, os acontecimentos do fim de 2008 e início de 2009 não estão se reproduzindo, com sinal trocado, neste momento? Não estamos deixando a boiada entrar sem tomar cuidados necessários para evitar seu estouro mais à frente?

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Quem quiser refrescar a memória e se assustar com a semelhança dos acontecimentos de hoje com o padrão nas crises do período áureo de hegemonia neoliberal, tem aqui um artigo do economista Luiz Gonzaga Belluzzo. Parece que foi escrito ontem, mas…. faz tempo. Assusta confirmar que as crises são anunciadas, mas os responsáveis por evitá-las falham por omissão, incompetência e/ou ideologia.

Dos personagens citados, o economista Luciano Coutinho hoje preside o BNDES. E o economista Jan Kregel, consultor permanente da Unctad e um emérito keynesiano, com passagens por prestigiadas escolas de economia dos Estados Unidos e da Europa, continua produzindo estudos e reflexões instigantes sobre os fluxos financeiros globais, sua especialidade.

 
“O professor Jan Kregel, da Universidade de Bolonha, escreveu em novembro do ano passado um artigo sucinto e esclarecedor sobre a badalada e temida crise asiática. Despretensioso, esse ilustre keynesiano não se entrega a lamúrias e lamentações por ter sido pego de surpresa pelos acontecimentos. Sabedor das sérias deficiências e limitações dos prognósticos em matéria econômica, Kregel preserva a paciência dos leitores, poupando-os de choramingos tão ao gosto dos economistas contemporâneos: ”Eu não previ, mas ninguém foi capaz de prever…”

A empáfia da corrente dominante derrete-se num vale de lágrimas. Mas deixemos os sabichões aturdidos com a precariedade de suas certezas. O professor Kregel, modestamente, sugere que a crise asiática oferece algumas lições importantes:

1. São íntimas as relações entre variações no curso das moedas e mudanças na trajetória dos preços dos ativos reais e financeiros.

2. A situação da balança em transações correntes (déficits ou superávits) parece não ter sido decisiva para o “enfraquecimento” das moedas. Países que estavam melhorando sua posição em conta corrente foram igualmente atacados.

3. A crise manifestou-se independentemente do tipo de financiamento do déficit em conta corrente. Os países que se apoiaram no investimento direto foram vítimas de pressões especulativas tão intensas quanto as observadas nas economias que se valeram dos capitais de ”curto prazo”.

4. Há uma relação muito estreita entre a crise financeira e a instabilidade dos sistemas bancários. Em muitos casos são fortes as conexões entre processo de estabilização (com âncora cambial), rápido influxo de capitais externos e instabilidade dos sistemas bancários.

Os trabalhos anteriores do professor Kregel mostram que ele estava atento para as relações entre abertura financeira, euforia especulativa com ativos denominados em moedas fracas e sobrevalorizadas e possibilidade de ocorrência de crises cambiais e bancárias. Desde a afirmação de sua supremacia nos anos 80, os mercados financeiros ”desregulamentados” foram protagonistas de episódios ”surpreendentes”. Entre eles estão o ”crash” das Bolsas de Valores em 1987; o colapso dos mercados imobiliários no Japão em 1989 e da Bolsa de Tóquio em 1990; dos ataques especulativos à lira italiana e à libra inglesa em 1992 e 1993; a crise no mercado americano de bônus em 1994; o fiasco mexicano de 1995 e finalmente o ”contágio” asiático ainda em curso, mas iniciado em meados em 1997 nos mercados imobiliários e de ações da Tailândia.

Trata-se, como se vê, de uma verdadeira procissão de ”falhas dos mercados”. Todas elas foram corrigidas, no todo ou em parte, por ações de última instância das autoridades monetárias nacionais e multilaterais. Os mercados, ditos eficientes na circulação de informações e operados por agentes racionais, portam-se na realidade como o garoto mimado e prodígio que torra a grana nos cassinos sabendo que o papai vem atrás e paga as contas.

Como já foi dito em outras ocasiões inclusive nesta coluna pelo professor Luciano Coutinho, é ingenuidade supor que os mercados financeiros contemporâneos atendam aos requisitos de eficiência, no sentido de que não podem existir estratégias sistematicamente ganhadoras. Os protagonistas relevantes destes mercados são os grandes bancos, os enormes fundos mútuos e de pensão, bem como a tesouraria das empresas que decidiram ampliar a participação da riqueza financeira em seu porta-fólio.

Em condições de incerteza radical esses agentes são obrigados a formular estratégias com base em uma avaliação ”convencionada” sobre o comportamento do preço dos ativos. Dotados de grande poder financeiro e de influência sobre a ”opinião dos mercados”, eles podem manter, exacerbar ou inverter tendências.

Suas estratégias são mimetizadas pelos investidores contemplados com menor poder e informação, ensejando a formação de surtos altistas, seguidas de colapso de preços dos ativos. É importante notar que as estratégias dominantes são formuladas num ambiente de incerteza radical e irredutível.

Essas condições, associadas à simetria de poder e de informação e ao comportamento mimético dos investidores, dão origem a processos especulativos auto-referenciais, instáveis e desgarrados dos ”fundamentos”. O resto é conversa para boi dormir.”
 

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O texto de Belluzzo reproduzido acima foi publicado há mais de 11 anos, na Folha de S. Paulo, em janeiro de 1998. Ele indica pelo menos duas coisas: que a atual crise financeira era uma bola cantada e que Belluzzo é um excelente analista econômico (já no futebol… sei não. Tudo bem ser palmeirense e presidente do Palmeiras. Mas insistir com Vanderlei Luxemburgo…).

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