Eficiência ferida

José Paulo Kupfer

27 de maio de 2014 | 08h16

A taxa de poupança na economia brasileira se encontra num ponto historicamente muito baixo. Mas as razões para que não tenha passado de 13,9%, em 2013, vindo numa descendente desde 2009, não são as que costumam ser apontadas por um grande número de economistas.

Não é a explosão do consumo das famílias, nem muito menos a “generosidade” do sistema de seguridade social, o fator que mais contribui para rebaixar a taxa de poupança aos atuais e anêmicos níveis. Diferentemente dessas teorias, a taxa de poupança é mais diretamente influenciada pelo volume de lucros retidos pelas empresas. Os lucros retidos desabaram nos últimos anos e a taxa de poupança desabou junto.

O achado é fruto de uma cuidadosa pesquisa realizada pelo Centro de Estudos do Instituto Ibmec (Cemec), sob a coordenação de seu diretor, o economista Carlos Antonio Rocca, professor da Faculdade de Economia da USP e ex-secretário de Fazenda em São Paulo. “No mundo inteiro, pelo menos metade da poupança agregada vem dos lucros retidos”, diz Rocca. “No Brasil, esse porcentual é até um pouco mais alto.” Os lucros retidos, conforme mostram as tabelas do Cemec, responderam, em 2013, por quase 60% da poupança agregada, depois de representarem, há dez anos, dois terços do total.

Ocorre que, nos últimos dois anos, os lucros retidos das empresas não financeiras de capital aberto sofreram um enxugamento abrupto. Se, de 2005 a 2011, os lucros retidos giraram na faixa de 3% do PIB, recuaram para níveis baixíssimos, equivalentes a 0,8% do PIB, em 2012, e 0,5% do PIB, no ano passado. Como parcela da poupança nacional, os lucros retidos das empresas desceram, nestes últimos 9 anos, de mais de 10% do total para menos de 8%.

Os lucros retidos foram à lona porque sua fonte primária – os lucros líquidos – encolheu. A equipe de Rocca constatou que o total do lucro líquido das empresas não financeiras de capital aberto se manteve equivalente a cerca de 3,5% do PIB, entre 2005 e 2011, mas despencou para 1,9% do PIB em 2012, e recuou mais, para 1,6%, no ano passado. O recuo dos lucros retidos foi ainda maior porque as empresas decidiram preservar a parcela destinada ao pagamento de dividendos. Estes se mantiveram, de 2005 para cá, no nível histórico em torno de 2% do PIB.

A poupança das famílias, aquela que, segundo certos diagnósticos, explicaria a queda da poupança agregada, não tem apresentado, de acordo com os levantamentos do Cemec, alteração significativa em seu comportamento histórico. No período analisado, variou, ano a ano, em torno de uma fatia de 5% do PIB, o que resultou, com o recuo da poupança como um todo, em aumento de participação. De 24,5% do total da poupança, em 2008, a poupança das famílias saltou para 37%, em 2013.

Soam muito estranhos, diante desses constatações, os diagnósticos bem corriqueiros no Brasil, segundo os quais, para aumentar a taxa de poupança doméstica, o Brasil deveria seguir o exemplo chinês e cortar benefícios previdenciários e de saúde básica, para impelir as famílias a poupar. Detalhe: ainda que a poupança das famílias chinesas seja bem mais alta que a das famílias brasileiras, também na China a principal fonte de poupança são os lucros retidos – que, no caso, engordam a poupança pública, já que o Estado chinês é sócio na grande maioria das empresas.

Esse tipo de “macroeconomia do lar”, que tenta comparar os problemas orçamentários da dona Maria e do seu João com as questões de natureza muito diversa da administração dos agregados econômicos, tende a produzir diagnósticos que podem levar à formulação de políticas equivocadas. Os verdadeiros males da baixa taxa de poupança agregada brasileira, como mostram com clareza os consistentes levantamentos de Rocca, ferem a geração de lucros nas empresas. Dizem respeito, assim, a uma muito preocupante perda cumulativa de eficiência do principal motor da economia.

Tudo o que sabemos sobre:

consumopoupança

Tendências: