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Eles querem que os emergentes paguem o pato

José Paulo Kupfer

13 de outubro de 2009 | 20h11

Inebriados pela conquista de espaço nos fóruns globais de decisão, os países emergentes parecem não ter percebido, ainda, que estão tentando empurrar para eles uma parte da salgada conta da crise.

O melhor exemplo é a pressão para que a China valorize sua moeda e, com isso, reduzam seus superávits em conta corrente, competindo menos no mercado internacional e abrindo mais o mercado interno. É verdade que o assunto não veio à tona agora. O governo do ex-presidente George W. Bush criou até um esquema periódico de reuniões bilaterais cujo objetivo, no fundo, era convencer os chineses a mudar sua política cambial. Nas últimas semanas, porém, essa pressão se intensificou a ponto de se tornar um dos temas principais da recente reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, em Istambul, na Turquia.

Mas não é só a China que anda sendo assediada pelo canto da sereia dos países ricos. Superavitários em seus balanços de pagamentos, os emergentes empilharam nos últimos anos trilhões de dólares em reservas internacionais. A China, primeira colocada desse ranking, já tem mais de US$ 2 trilhões. O Brasil também já acumulou mais de US$ 230 bilhões e ninguém sabe onde isso vai parar. Considerando os principais países desse grupo (África do Sul, Rússia, Índia e México, além de Brasil e China), são mais de US$ 5 trilhões. Esse dinheiro é fruto, principalmente, de superávits comerciais polpudos que os emergentes obtiveram com os países desenvolvidos, notadamente os Estados Unidos.

Para sair da crise, os americanos dizem que não podem mais exercer o papel de aspirador global. Precisam, assim como as economias européias ricas, estimular mais do que nunca suas exportações e com esse caminho óbvio, revigorar a economia. O problema é que, para a estratégia dar certo, é indispensável combinar com o outro lado. Por isso, pressionam a China, que, com seu regime de câmbio fixo, mantém o yuan propositalmente desvalorizado.

No Brasil, onde o câmbio é flutuante, o real vem se fortalecendo, o que se encaixa perfeitamente no objetivo dos americanos. Aqui, enfrentamos a pressão acumulando reservas. É tal a liquidez despejada na salvação dos dedos no capitalismo mais evoluído, que até em credor líquido internacional, inclusive do FMI, o Brasil se tornou. Claro que isso é uma anomalia. Assim, enquanto o presidente Lula usa o fato como peça publicitária, o país vai gastando recursos fiscais escassos para “ajudar” os ricos a sair do buraco.

Em Istambul, os países desenvolvidos apresentaram uma proposta segundo a qual os emergentes não precisariam mais acumular tantas reservas. Claro, acumular reservas significa resistir a uma valorização da moeda local frente o dólar.  Mas o que oferecem em troca é uma duvidosa ajuda do FMI, em caso de problemas no balanço de pagamentos.

O Fundo, segundo a proposta, funcionaria como um banco central global, na função de emprestador de última instância. Não ficou claro como esse mecanismo funcionaria na prática. Se depender da história pregressa (que o Brasil conhece muito bem), não é algo para levar a sério. 

Não dá para negar que o yuan desvalorizado distorce o comércio global. Também não dá para negar que o arranjo sobre o qual a economia mundial estava alicerçada precisa de mudanças. Mas isso não significa que os emergentes tenham de pagar o pato de uma crise que não provocaram, tendo de arcar com um pedaço grande do ajuste. Propostas como a que transforma o FMI em um BC global embutem um recado dos desenvolvidos que diz mais ou menos o seguinte: “Enquanto aquele jogo nos beneficiou, estávamos felizes. Agora nos machucamos e não queremos mais.”

Claro que, para evitar crises como esta, é necessário muito mais do que valorizar ou desvalorizar moedas. Aumentar a fiscalização e a regulamentação do sistema financeiro (que, afinal, recicla a dinheirama das reservas) talvez seja o passo número um. Há vários outros.

Um dos mais importantes e eficazes desses passos, no entender de mais e mais economistas, seria incorporar o acompanhamento da formação das bolhas financeiras – como se acompanha a trajetória dos preços dos ativos físicos – como premissa para a definição das políticas monetárias (e da fixação das taxas de juros). Sem isso, qualquer avanço se mostrará frágil e previsões como a do sempre pessimista Nouriel Roubini (para quem a próxima crise pode já estar sendo gestada) não demorarão a se confirmar.

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