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Em busca de explicações para a alta do dólar

José Paulo Kupfer

03 Outubro 2008 | 10h27

Estamos, eu e o Leandro Modé, reunindo as explicações sobre a alta do dólar no Brasil. Ontem, quando a cotação da moeda americana passou dos R$ 2, coisa que parecia sepultada no passado recente, sugeri que ele colocasse em letras o que argumentou comigo. Vai aí:

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Pela primeira vez desde agosto do ano passado, a cotação do dólar no fechamento passou de R$ 2. Analistas do mercado financeiro juram de pé junto que, desta vez, a disparada da moeda americana não é explicada por uma corrida de investidores em busca de segurança. Deve-se, garantem eles, à escassez de linhas de financiamento.

Segundo esse argumento, instituições financeiras internacionais não estariam renovando – ou cobrando muito caro para renovar – linhas de crédito a exportadores e importadores do Brasil. Resultado: a maioria das empresas não rola o empréstimo e tem de ir ao mercado comprar dólar, o que pressiona a cotação.

Essa explicação, porém, não convence a todos. Luiz Sérgio Guimarães, do Valor, atribui a alta de 30% do dólar de agosto para cá à especulação. Segundo ele, prova disso é que o fluxo cambial no Brasil estava positivo em US$ 2,75 bilhões em setembro (até o dia 26). Ou seja, está entrando mais dólar do que saindo.

O problema é que esse argumento é incompleto, pois especulação existe para os dois lados. Assim como tem gente que aposta na queda da moeda brasileira, tem gente que aposta na alta. Os fatos normalmente desmentem aqueles que acusam os especuladores por determinados movimentos de mercado. Sem dúvida, eles botam mais lenha na fogueira, mas não são os principais responsáveis por uma forte alta ou baixa de preços e cotações.  

É inegável que a desvalorização do real nos últimos 60 dias foi expressiva. Ainda assim, talvez seja o caso de lembrar que as perspectivas para o comércio exterior brasileiro não são das melhores. O respeitado economista José Roberto Mendonça de Barros disse ao Valor que é grande a probabilidade de o saldo comercial cair para zero em 2009, o que aprofundaria o déficit em conta corrente.

Talvez o mercado esteja se antecipando a isso, ainda que com um certo exagero. Não custa lembrar que a crise atual é provavelmente a pior desde a Grande Depressão. Culpar a especulação parece simplório. Passado o fogaréu, a cotação do dólar vai se acomodar, e provavelmente em nível superior ao que estava antes da crise. Aí vamos ver se o câmbio flutuante aqui no Brasil flutua também para cima.

Comentários à margem do texto do Leandro:

Ainda não estou convencido de que a crise atual é “a pior desde a Grande Depressão”. Esse tem sido um mantra do momento, mas falta a confirmação da realidade.  Pode ser que venha a ser, mas, por enquanto, a conclusão é precipitada. Parece haver uma sofreguidão para antecipar o que vai acontecer. Os futurólogos da economia, depois do fiasco dos seus sistemas de previsão, deveriam acalmar o facho.

Outro comentário: “ a inflação aleija, mas o câmbio mata”. Quando o câmbio valorizado começou a derrubar os saldos comerciais e a reverter os saldos em conta corrente, houve, mais ou menos recentemente, quem contestasse a famosa constatação de falecido ministro Mário Henrique Simonsen. Olhaí o que está acontecendo.

Conclusão: encarar déficits em conta corrente apenas como atração de poupança externa é mais uma das irresponsabilidades que os neoliberais na economia querem fazer passar como sofisticação enganosa no uso da teoria.