Enfim, o investimento

José Paulo Kupfer

21 de maio de 2013 | 10h05

Depois de oito semanas estacionada em 3%, a mediana das projeções para a expansão da economia em 2013, coletadas semanalmente pelo Banco Central, entre analistas de mercado e divulgadas no boletim Focus, recuou, na edição desta segunda-feira, para 2,98%. O recuo chama a atenção menos pelo rompimento de uma barreira simbólica de resistência do nível de atividades do que pelo fato de que tenha ocorrido quando já estão disponíveis indicações seguras de que o PIB experimentou avançou relativo vigoroso, em torno de 1%, no primeiro trimestre do ano – o resultado oficial deve ser divulgado pelo IBGE em uma semana, na mesma quarta-feira, 29 de maio, em que o Comitê de Política Monetária (Copom) definirá a taxa básica de juros para os próximos 45 dias.

A leitura natural para esse aparente desencontro é a de que as expectativas de mercado para o restante do ano não são das mais otimistas. Mesmo que o crescimento do primeiro trimestre de 2013, em relação ao último de 2012, aponte um ritmo de expansão na casa dos 4% anualizados – o que não ocorria desde o segundo trimestre de 2010 –, as desconfianças do mercado têm algum fundamento.

Não se pode esquecer que esse crescimento, embora razoável, já expressa uma acomodação em relação ao ritmo do começo do ano, quando , depois dos resultados de janeiro, previsões de um avanço de até 1,5% no primeiro trimestre sobre o anterior se tornaram frequentes. Além disso, as informações sobre a atividade econômica em abril indicam mais um pouco de moderação. O freio vem principalmente do comércio, vítima dos efeitos da inflação nas bordas do teto da meta sobre a renda disponível das pessoas.  É com base nessas indicações que o Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), por exemplo, projeta uma evolução da economia, no segundo trimestre, de apenas 0,5%.

Não é recomendável, porém, já colocar muitas fichas numa trajetória francamente descendente para a evolução do PIB em 2013. Quando saírem os números do IBGE, ficará claro que o avanço do primeiro trimestre foi, finalmente, sustentado pelo investimento que, vindo de uma base deprimida, parece ter evoluído em ritmo muito acima das expectativas e bem mais forte do que o consumo das famílias. A ascensão do investimento a novo motor da economia, mesmo com sua natureza mais volátil, poderá exigir ajustes futuros nas projeções dos analistas para o desempenho da economia.

Não há consenso, entre os analistas, sobre a sustentação, no restante do ano, da forte retomada dos investimentos registrada no primeiro trimestre. Mas formou-se entre eles a convicção de que a recuperação da produção de bens de capital, em conjunto com as importações de máquinas e equipamentos, nos primeiros três meses do ano, já produziu um colchão capaz de assegurar um crescimento econômico básico de pelo menos 2%, em 2013.

Traduzida não só pelo crescimento da fabricação de caminhões e ônibus, mas também por uma generalizada recuperação da produção de máquinas e equipamentos, a expansão dos investimentos permite localizar espaços para um desempenho menos apático de pelo menos alguns segmentos industriais. A consultoria LCA, por exemplo, considera que, na esteira do bom desempenho do setor agrícola – responsável, é verdade, por metade do crescimento do primeiro trimestre –, a agroindústria, com destaque para o segmento de açúcar e álcool, acrescentará alguns pontos ao PIB deste ano. Idem no caso da indústria de óleo e gás, da qual se espera, para o segundo semestre, a retomada de maiores índices de produção.

 

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