Equipe econômica: agora como vidraça

José Paulo Kupfer

17 de maio de 2016 | 15h06

Os primeiros indicados pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para cargos na linha de frente da equipe econômica, incluindo o novo presidente do Banco Central, chegam ao governo com o reconhecimento geral de suas qualidades técnicas e uma rara transparência em relação ao que pensam dos desafios que terão pela frente. A partir dessa constatação, é possível afirmar, por exemplo, que os balões de ensaio lançados, na sexta-feira, pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, em seu primeiro pronunciamento já empossado, refletem ideias dos escolhidos agora anunciados.

Quando declarou que talvez fosse necessário aumentar a carga tributária, com uma CPMF, antes de reduzi-la, Meirelles estava reproduzindo diagnósticos do economista licenciado do Ipea Mansueto Almeida Jr., novo ocupante da Secretaria de Acompanhamento Econômico (SEAE). Ao mencionar a necessidade de uma idade mínima para a Previdência, com regra de transição nem muito longa nem muito curta, replicava propostas do economista Marcelo Abi-Ramia Caetano, também do Ipea, novo titular da Secretaria de Previdência agora incorporada à Fazenda.

Almeida e Caetano, tanto quanto o economista-chefe do Itaú-Unibanco, Ilan Goldfajn, indicado para a presidência do Banco Central, são especialistas com participação assídua no debate público sobre os rumos da economia e as escolhas de políticas econômicas. Em geral críticos das políticas adotadas no governo da presidente afastada Dilma Rousseff, terão agora a oportunidade de, na condição de vidraça, colocar suas teorias em prática ou aprender que na prática a teoria é outra.

Em seus artigos e entrevistas, Caetano defende uma transição de 15 anos para um novo regime de previdência com idade mínima móvel, variando conforme as mudanças na expectativa de vida dos brasileiros. Defende também a desvinculação do salário mínimo como fator de reajuste do valor dos benefícios e a vedação de acúmulo de aposentadorias e pensões. Algumas dessas sugestões de mudanças nas regras vigentes afetam direitos adquiridos.

Almeida, destacado conhecedor dos meandros das contas públicas, integrou a equipe que formulou o programa do PSDB para as eleições de 2014 e mantinha até aqui um blog bastante ativo de análises econômicas, fortemente crítico do governo da presidente afastada Dilma Rousseff. Em longo texto publicado nesta segunda-feira, num tom de manifesto de despedida, voltou a reafirmar que o equacionamento da questão fiscal não tem como ser rápido e não há como evitar que passe pelo Congresso, visto que “90% do orçamento é consumido por despesas obrigatórias”.

Já Goldfajn, economista de perfil ortodoxo, que se posicionaria, ao tratar da política de juros em algum ponto médio entre “falcões” e “pombos”, sugere, em relatórios recentes, o início de um ciclo de cortes na taxa básica, a partir do segundo semestre. Com a perspectiva do impeachment de Dilma, introduziu, na sua última revisão do cenário macroeconômico, publicada no início de maio, projeções mais otimistas para a economia em 2017. Nessa revisão, o PIB avança de expansão de 0,3% para 1%, o déficit primário recua de 2,1% do PIB para 1% do PIB e mantém a estimativa de inflação em 5% no fim do ano, na borda do centro da meta de 4,5%.

Com ideias menos conhecidas do público, mas com fama de “falcão”, Carlos Hamilton Araújo cuidará da formulação de políticas econômicas, como secretário de Política Econômica, na Fazenda. Engenheiro de formação, como Meirelles, e funcionário público de carreira, esteve com ele na diretoria do BC no último ano do segundo mandato de Lula e depois nos governos de Dilma até o ano passado. Transferiu-se para o setor privado e ocupou cargo de diretor de uma empresa do grupo J&F, controladora da JBS, do qual Meirelles era presidente do Conselho de Administração até assumir a Fazenda.