Excessos nos mercados

José Paulo Kupfer

16 de março de 2016 | 18h39

Especulações políticas desenfreadas produziram especulações financeiras idem nos mercados nacionais de ativos nesta quarta-feira. A cotação do dólar deu novos pinotes na parte matutina da sessão, mas reverteu a tendência na parte da tarde, fechando o dia em baixa. No mercado acionário, o mesmo fenômeno, com a Bolsa fechando em alta depois de iniciar o dia ensaiando uma derrubada.

Os mercados continuam reagindo com extrema volatilidade às instabilidades e incertezas da cena política, oscilando entre chutes e rumores a respeito do  processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, o que agora inclui os desdobramentos da nomeação do ex-presidente Lula, investigado na Lava Jato, como ministro-chefe da Casa Civil.

No mercado cambial, o comportamento das cotações do dólar indica que o movimento de “realização de lucros” encontrou caminhos para se concretizar mais rápido do que os especuladores mais otimistas poderiam calcular. Se em um mês, até 11 de março, as cotações recuaram 10%, nos últimos cinco dias, até meio-dia de 16 de março, avançaram 6,5% e já estão mais perto do que as condições da economia apontam ser o valor adequado, neste momento, para a moeda americana em reais. O recuo observado na segunda metade do pregão desta quarta-feira, nesse sentido, não parece ter força para reverter o caminho do ajuste um pouco mais acima.

O mesmo se pode dizer dos papéis de Petrobrás, Vale e de bancos, na Bolsa de Valores. Recentemente, subiram ou caíram exageradamente e, em meio a uma montanha russa com suas cotações, rodam uma linha de ajuste reparador de excessos. O restante dos movimentos, em ambos os mercados, não se relaciona a nada mais do que rumores e chutes. Tentar justificar a virada ocorrida da manhã para a tarde pela decisão do Federal Reserve de manter os juros inalterados ou atribuir a alteração de rumo à fala de Dilma prometendo não mexer nas reservas cambiais e manter a atual equipe econômica é quase cômica de tão frágil. Que surpresa houve na decisão do Fed capaz de mudar tão radicalmente a direção da cotação dos papéis? Que mudanças tão profundas o hoje politicamente vulnerável ex-presidente Lula poderá promover na economia ao assumir a Casa Civil?

É claro que tal nível de puxa e estica não encontra respaldo em nenhuma explicação técnica. É antes um clássico dos momentos de grande instabilidade e incerteza econômica e política, como o que temos vivido nos últimos tempo e acaba de ser fortemente turbinado pelo ingresso do ex-presidente Lula no governo de Dilma Rousseff. É isso que costuma ocorrer quando os cálculos de fluxos de valor presente, taxa de retorno, desempenho econômico, liquidez de mercado e outros indicadores que normalmente são usados como referência para decisões de investimento dão lugar a rumores e suposições, baseadas em avaliações políticas assentadas em fortes doses de “achismos”.

Não custa repetir que, nessas horas em que o jogo fica mais bruto e os critérios dos tempos de normalidade perdem substância, só os profissionais devem permanecer em campo. Cautela redobrada com as “explicações técnicas” para os eventos em curso. Não há normalidade possível de ser justificada com essa sanfona. Assim, jogadores que exercem outras atividades e só podem acompanhar os pregões nos intervalos de sua atividade principal, devem refrear o apetite e segurar ambições. O que parece ganho fácil logo mostrará a realidade cinza dos prejuízos.