Façanha de um brasileiro

José Paulo Kupfer

16 de junho de 2008 | 02h19

Não tem nada a ver com economia. Mas, como ninguém é de ferro e tem a ver com uma das minhas preferências pessoais, os musicais da Broadway ou do West End londrino, peço licença para um “off topic” na madrugada. É que o barítono brasileiro Paulo Szot, 38 anos, acaba de ganhar o Tony por sua perfomance na remontagem do musical “South Pacific”, na versão de 2008, em cartaz no Vivian Beaumont Theatre, do Lincoln Center. Vale comemorar e ouvir um pouco do desempenho que deu o Tony ao brasileiro (clique aqui).

A vitória de Szot (pronuncia-se “Chót”) é absolutamente inédita para um brasileiro – ainda mais para um artista cuja carreira floresceu e amadureceu no Brasil. De formação e atuação operística, Szot nasceu em São Paulo e, embora tenha estudado canto em Cracóvia, na Polônia de seus antepassados, só se lançou na cena internacional há cerca de cinco anos – mesmo assim sem jamais deixar de participar de montagens brasileiras.

Szot ganhou o Tony (o Oscar do teatro americano), na categoria “ator protagonista de musical”. Ele desempenha o papel de Emile De Becque, fazendeiro francês numa ilha próxima do Japão, no tempo da Segunda Guerra, que se envolve com uma enfermeira americana. “South Pacific” é um clássico do gênero, de autoria de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, eles também autores clássicos da Broadway.

“South Pacific” ganhou o Tony deste ano na categoria “remontagem de musicais” e em outras categorias técnicas. É o primeiro “revival” na Broadway do grande sucesso que estreou em 1949 e encerrou suas apresentações cinco anos depois, inscrevendo várias de suas canções entre os “standards” da música americana. Sua versão cinematográfica, de 1958, dirigida por Joshua Logan, com os canastrões Rossano Brazzi e Mitzi Gaynor, também fez enorme sucesso.

É de se esperar que a proeza de Paulo Szot impulsione a cena lírica brasileira, que avança, mas sempre lentamente, em meio a dificuldades de toda ordem. E também dê mais força à categoria dos musicais, que só muito recentemente e ainda com escassez de recursos e material humano, começou a ganhar corpo, principal em produções com temas brasileiros e sem os grilhões das franquias importadas da Broadway, ainda predominantes.

Um povo tão musical bem que merece.

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