Menos liquidez lá, mais juros aqui

José Paulo Kupfer

19 de junho de 2013 | 21h19

Nem foi necessário esperar a coletiva de imprensa do presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, para que os mercados considerassem que a reversão da política de injeção de farta liquidez, para estimular a economia americana, estava mesmo a caminho. Bastou a divulgação do comunicado da reunião, que manteve os juros entre zero e 0,25%, com projeções otimistas para inflação, crescimento econômico e taxa de desemprego. As cotações do dólar escalaram altas em todas as praças ainda abertas e os índices das bolsas de valores desabaram.

Bernanke confirmou existir consenso de que a redução das compras de ativos deve começar ainda este ano, mas até tentou introduzir dúvidas nas certezas já formadas sobre os movimentos da política monetária, a partir da deflagração do processo de enxugamento monetário. Disse, por exemplo, que os juros podem começar a subir “vários trimestres” depois que a taxa de desemprego recuar para 6,5% – o gatilho para a mudança de direção na política monetária, agora previsto para ocorrer em fins de 2014. Mas os rendimentos dos “treasuries”, os títulos federais de 10 anos, que formam a referência do mercado, já tinham galgado as alturas e batido no maior rendimento em um dia em mais de um ano. Em pouco menos de cinco anos, desde a eclosão da crise, em 2008, o Fed injetou US$ 3 trilhões na economia – um quarto do que foi bombeado pelos bancos centrais ao redor do mundo. A retirada, mesmo que gradual e parcial desses recursos, produzirá elevação dos juros, nos Estados Unidos, e valorização do dólar.

Afetada como todas as demais, sobretudo as emergentes, a economia brasileira tende a ser uma das mais atingidas por esse movimento. Com um mercado cambial mais líquido do que a de boa parte dos outros emergentes, o Brasil vive um momento de fragilidade econômica, com ampliação dos déficits externos e refluxo na atração de capitais externos. Já na própria quarta-feira o real foi uma das moedas que mais perderam valor frente ao dólar, com a cotação repetindo níveis dos picos da crise, no primeiro semestre de 2009.

A perspectiva da mudança política monetária do Fed agita os mercados há mais de um mês e a confirmação de que a mudança virá até o fim do ano conduz a uma inapelável revisão nos cenários econômicos para a economia brasileira, ainda em 2013. É possível prever uma acomodação do câmbio até não muito longe de R$ 2 por dólar. Mas isso, se de fato ocorrer, terá sido reflexo da elevação dos juros a dois dígitos e do abandono de qualquer pretensão de crescimento, dado que conter a inflação passaria a ser prioridade máxima.

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