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Federal Reserve: cozinhando os juros em banho-maria

José Paulo Kupfer

27 Julho 2016 | 17h38

O Federal Reserve manteve mais uma vez inalterada, em julho, a taxa de juros de referência no mercado americano. Na reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), apenas um dos seus membros votou por uma elevação do intervalo da taxa dos fundos federais dos atuais 0,25% a 0,5% para 0,5% a 0,75%.

Mesmo observando avanços no mercado de trabalho, entre maio e junho, e aumento “forte” no consumo das famílias, o Fomc verificou que a inflação ainda roda abaixo da meta de 2% e os investimentos das empresas continuam fracos. Tudo pesado na balança de riscos, uma possível alta dos juros americanos ficou para setembro. Mas, ainda que o comitê tenha constatado redução de riscos para o crescimento da economia, ainda não se pode apostar todas as fichas nessa hipótese.

Há razões cada vez mais visíveis, ao contrário, para acreditar que o Fed pode muito bem manter a decisão no banho-maria com o qual vem cozinhando a política monetária nos últimos anos. Os juros ficaram estacionados por quase 10 anos, desde junho de 2006, até uma ligeira alta em dezembro, mas voltaram a se manter inalterados nas últimas cinco reuniões do Fed.

Nesse período, insinuações de possíveis altas na taxa de referência, depois não confirmadas, desencadearam episódios de incerteza e turbulência nos mercados financeiros e na economia global. É possível que a história esteja se repetindo, pois indicativos de altas nos juros, depois desmentidos pela realidade, de fato, se tornaram comuns nas proximidades das últimas três reuniões do Fomc.

À margem dos progressos no mercado de trabalho e dos sinais de melhora num ambiente econômico ainda com incertezas, a dificuldade do Fed em elevar os juros pode decorrer da situação em que se encontra o sistema bancário americano — replicado pelo europeu e o japonês. Depois de todos os afrouxamentos monetários após o crash de 2008, a farta liquidez injetada empoçou nos bancos, por falta da correspondente demanda por crédito, e se encontra, atualmente, entupindo os cofres do Federal Reserve e dos outros grandes bancos centrais.

O tema foi tratado com um pouco mais detalhe na coluna de 12 de julho, publicada no Estadão, sob o título “Escada rumo ao céu”(http://bit.ly/29Um0uk), do qual alastramento dos juros negativos, que já estão valendo em mais de US$ 10 trilhões de títulos, é uma das faces visíveis do problema.

Para resumir a história dos riscos que tal situação mantém acesos, bastam duas evidências. A primeira é a evolução do volume de ativos carregados pelos quatro grandes bancos centrais da economia global – americano Federal Reserve, o europeu BCE, o Banco do Japão e o Banco Popular da China —, que saltou de US$ 6,5 trilhões, em 2008, para US$ 16,9 trilhões, em 2016. A outra diz respeito ao excesso de reservas mantidas pelos bancos privados no Fed. A parcela livre mantida pelo sistema no Fed saltou de mínimos 0,01% do PIB, em 2007, para imensos 14% do PIB, alcançando cerca de US$ 2,5 trilhões, em 2016.

Um aumento de juros do Fed, mesmo que gradual e contido, a esta altura do campeonato, poderia desencadear uma desarrumação de grandes proporções no sistema bancário internacional. Com a economia americana ziguezagueando e a inflação ainda se fingindo de morta, não é nada improvável que, embora alguns dirigentes do Fed continuem a falar em altas próximas, a maioria preferindo continuar cozinhando os juros em banho-maria até que seja possível eliminar a atual armadilha da liquidez.