Fim de mais uma era da inocência no mercado financeiro

José Paulo Kupfer

31 de março de 2008 | 15h48

É improvável que a ampla reforma regulatória do mercado financeiro americano, anunciada hoje pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson Jr., emplaque antes das eleições presidenciais nos Estados Unidos ou mesmo antes do próximo ano. Ela terá de ser aprovada pelo Congresso e, possivelmente, vai ter de disputar os votos dos congressistas com outras propostas, igualmente abrangentes e em certos casos menos flexíveis, em gestação no Legislativo, principalmente entre os democratas.

A proposta de Paulson mexe com todo o sistema americano de regulação financeira e já está sendo classificada como a mais profunda desde a grande depressão dos anos 30. Um dos pontos principais da proposta é a concessão de amplos poderes ao Federal Reserve. O banco central americano, de acordo com a proposta de Paulson, poderia quebrar sigilos bancários, bisbilhotar contabilidades, e interferir em operações. Nenhuma instituição financeira, incluindo bancos de investimentos e hedge funds, escapa da proposta de Paulson, expressa num documento de 218 páginas.

Prevê também a fusão de órgãos reguladores, entre os quais a fusão da lendária Securities and Exchange Comission (SEC) com a Commodity Futures Trading Commission, juntando num só organismo regulador e fiscalizador, os mercados de ações, de commodities e outros futuros. E a criação de outros dois órgãos reguladores – um para assegurar a segurança de instituições financeiras que operam com papéis garantidos pelo governo e outro para fiscalizar a conduta dos negócios, como forma de evitar prejuízos futuros a investidores e clientes.

A proposta do secretário do Tesouro, Henry Paulson Jr., ex-executivo de Wall Street, é a marca do fim de mais uma Era da Inocência, na evolução do capitalismo financeiro. Por um tempo, o lobby da auto-regulação do mercado perderá espaço para os controles públicos e governamentais.

Se a história ensina alguma coisa, já dá para saber que isso vai durar até que a ganância dos investidores descubra novas tecnologias para burlar os controles. E que seus lobbies, invocando como sempre – e cinicamente – a liberdade de ação individual, consigam, mais uma vez, nublar os olhos e as mentes das autoridades.

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