Fla-Flu do Pacaembu: pelada emocionante

José Paulo Kupfer

21 de março de 2016 | 13h42

O Fla-Flu (o verdadeiro) sempre transcendeu ao futebol. Prova disso é que, por maior que seja a diferença técnica de um time sobre o outro, a cada momento, o favoritismo antes do jogo nunca se mantém quando a bola rola. Também a emoção do futebol, quase sempre conectada ao jogo de qualidade, corre em faixa própria nos Fla-Flu. Caso do primeiro que assisti no novo Maracanã, em 2014. Ainda bem que não lembro as escalações, mas aos dez minutos de jogo já dava para perceber a presença de uma maioria de pernas de pau em campo.

No Fla-Flu inusitado, ainda que não inédito, do Pacaembu, neste domingo, 20 de março, não foi diferente. Muitos pernas de pau em campo, incluindo os dois técnicos. Uma soma de jogadores de qualidade técnica apenas sofrível — sem exceções — e uma armação tática de apertar o coração. Apertar o coração porque essa é a regra do futebol brasileiro hoje. Ver nossos times jogar depois de assistir na TV os europeus, espanta, assusta, dá vontade de chorar.

No Fla-Flu do Pacaembu, como disse na croniqueta publicada no Estadão impresso (ver em  http://bit.ly/1U1gl5oo) o 0 a 0 não foi um resultado justo. Ele não espelhou o péssimo futebol jogado em campo. Para ser justo, o placar deveria ser menos 2 a 2 ou algo assim.

O Flamengo, por exemplo, o “Barcelona” que alguns rubro-negros fanáticos cantaram na estreia de Muricy, do Barcelona não tinha nada, era um time brasileiro típico dos últimos anos, aquele que fracassou dramaticamente na Copa do Mundo. O time catalão marca a saída de jogo do adversário, o Fla do domingo marcava apenas no seu próprio campo.

O espaço que abriu para o Fluminense, no começo do jogo, nunca foi aproveitado porque, no lado tricolor, a ligação defesa e ataque era direta, procurando, com passes longos, um atacante pela lateral. Mas o coitado, já meio sem talento, logo se via diante de dois defensores e o máximo que conseguia era um lateral. Nada de troca de passes, nenhum meia de ligação fazendo esse papel.

O que aconteceu até os 30 minutos do primeiro tempo foi então uma tentativa rubro-negra de jogar em contra-ataque. Aproveitou a defesa tricolor em linha e avançada, mas o passe era errado, forte demais ou mal direcionado. O Fla era mais rápido, mais objetivo, mas sem contundência. Resultado, a única defesa com alguma importância de um dos dois goleiros no jogo foi de Diego Cavalieri, numa falha da sua zaga esquerda — onde estava o inefável Wellington Silva, aquele que não consegue fazer uma jogada sem um pirueta corporal desnecessária e arriscada.

Faltam ao futebol brasileiro preparo físico e treinamento tático. Deste segundo, o Fla-Flu deu provas com a armação dos times e a pouca objetividade das jogadas. O Fluminense, com maior domínio da bola, trocava tantos passes, demorava tanto para sair da defesa ao ataque que, torcedores gaiatos começaram a gritar “olé, óle”, sem que dar “olé” fosse a intenção dos jogadores. Uma piada.

Do primeiro problema, viu-se no gramado. O sol estava forte no primeiro tempo, fazia calor, e o jogadores, já aos 30 minutos, começaram a cadenciar o ritmo de jogo. Era clara, já aí, essa intenção, expressa pela lentidão dos goleiros, ao repor a bola. Um enrolation sem camuflagem.

O padrão técnico sofrível do primeiro tempo não mudou no segundo. Nem as substituições — três no Fluminense, duas no Flamengo — tiveram qualquer efeito em mudar esse padrão. Se as do Fla não deram em nada, as do Flu não ofereceram alternativas táticas, mas simplesmente atenderam ao cansaço dos que saíram. Continuaram as interrupções excessivas na sequências das jogadas, por exagero de faltas, muitas cavadas depois que o jogador perdia o lance. Em consequência, a torcida vibrou mais com os cartões amarelos do que com as lances de jogo.

 

Aos 30 minutos da etapa final, já era possível concluir que ali só sairia um gol por falha da defesa ou um lance individual improvável. Se, em 95 minutos, um chute chegou no gol adversário, no segundo tempo, foi muito. Com o passar do tempo, as tentativas de acertar a meta mais de longe mostravam pontaria muito falha — outra vez, a ausência de treinamento sendo comprovada. Nas faltas próximas à área, inclusive uma, em favor do Flamengo, no fim do jogo, quase na risca da área, nada de efetivo.

O fim foi no estilo “bumba meu boi”, com chutões para o alto, mesmo no meio de campo, e a resposta com cabeçadas também para o alto. O Fla-Flu do Pacaembu, em 2016, terminou em pelada.

Mesmo assim, fora do gramado, restou a mística do clássico, cuja história, segundo Nelson Rodrigues, que começou “40 minutos antes do nada”. Estádio lotado, com grande superioridade da massa flamenguista, com destaque para a convivência mais do que pacífica, amistosa, entre rubro-negros e tricolores.

Se o futebol é uma metáfora da vida, o Fla-Flu do Pacaembu, embora o futebol não tenha sido convidado, foi uma festa bonita, com emoções de sobra num jogão que não se viu, a mostrar que a rivalidade não precisa alimentar ódios.

 

 

 

 

 

 

http://bit.ly/1U1gl5o

 

 

O Pacaembu, para mim, sempre fora o palco do Corinthians. Era lá que eu levava meus dois filhos, paulistanos e tão diferentes entre si, mas não na paixão pelo alvinegro paulista. Um Fla x Flu no Pacaembu, porém, só podia mesmo acionar a caixa da memória – esse lugar das brumas, que costuma nos pregar peças

Mas, foi com a nitidez das imagens do Canal 100 que veio à mente o Fla x Flu de 1963, um 0 a 0 que nos tirou o título, diante do maior público de todos os tempos em um jogo entre clubes, quando fui parar da arquibancada na geral sem nunca saber como. Depois, o título de 1964, em melhor de três com o Bangu, então favorito. Ou contra o Botafogo, em 1971, mais de 150 mil pagantes, com um gol polêmico aos 43 minutos do segundo tempo, depois que o zagueiro Marco Antonio saltou com o goleiro adversário e o tirou da jogada.

A grande maioria era de torcedores Rubro-Negros no Pacaembu neste domingo

E mais ainda o de 1995, talvez o meu maior Fla x Flu, 3 a 2 com gol de barriga de Renato Gaúcho, a menos de cinco minutos do final.

O Fla x Flu deste domingo? Como bom torcedor ranzinza – adoro o meu time, mas gosto mais do futebol bem jogado –, achei o 0 a 0 um placar injusto, que não expressou o péssimo futebol apresentado. Uma pelada, em resumo. Mesmo assim, o coração bateu mais forte por 90 minutos.