Futurologias

José Paulo Kupfer

13 de dezembro de 2011 | 08h22

As bolas de cristal dos economistas estão a toda, como sempre, nesta época do calendário. É hora de fazer o balanço dos erros e acertos das previsões para o ano que se encerra e de rodar os modelos de previsão para o ano que se inicia.

Não há muita surpresa no fato de que houve desvios – e alguns bem grandes – nas projeções, em relação ao que realmente se verificou em 2011. Mas é de certo modo surpreendente o otimismo que está aparecendo nas telas dos computadores dos videntes econômicos, quando aparecem as projeções para 2012.

Para os especialistas dos departamentos de pesquisas dos grandes bancos e das consultorias de maior porte, a evolução da economia em 2012 será uma espécie de espelho invertido do que se assistiu em 2011. Ritmo lento no primeiro semestre, maior aceleração no segundo, para fechar o ano com expansão de pelo menos 3,5%.

A marcha, trimestre sobre trimestre, segundo os modelos de projeção, aponta para um crescimento gradual e crescente, no próximo ano. Nos exercícios futurológicos dos economistas, o PIB avançará em torno de 1%, de janeiro a março, alcançará entre 1,3% e 1,5%, no segundo trimestre, acelerará para um pico perto de 2%, no período julho a setembro, e repetirá a dose, com ligeiro viés de acomodação, nos três últimos meses de 2012.

Maior surpresa ainda fica com as previsões para 2013. A curva projetada para a evolução do PIB pelos departamentos de análises econômicos de dois dos maiores bancos brasileiros é uma ladeira acima. Na comparação com os 12 meses anteriores, o PIB crescerá acima de 4,5%, no primeiro trimestre, subirá para 5,5%, no segundo, escalará até 6%, entre julho e setembro, fechando o ano com expansão de 5,5%.

Previsões desse tipo, com suas pretensões científicas, na verdade, são mais úteis como referência para delimitar o “estado de espírito” não só do ambiente econômico, mas também de um importante grupo de formadores de opinião – capazes em alguma medida de influenciar, com suas profecias, o próprio rumo dos acontecimentos. Mas estão sempre sujeitas às chuvas e trovoadas metodológicas e aos percalços dos modelos de projeção utilizados.

Ano passado, nesta mesma época, a mediana das previsões para 2011 coletadas pelo Boletim Focus – divulgado semanalmente pelo Banco Central, com base nas estimativas do mercado financeiro — apontava para um crescimento do PIB de 4,5% e não vai dar mais de 3%. A inflação, medida pelo IPCA, por sua vez, ficará em torno de 6,5%, mais de um ponto acima dos 5,21% previstos. E os juros básicos fecharam 2011 em 11% ao ano, bem menos do que os 12,25% projetados.

Também não chegaram perto do alvo as previsões para o crescimento industrial, que mal passará de 2% quando estava projetado em 5,35%. Sem falar nos costumeiros e mais fortes desvios nas projeções para as contas externas. O saldo da balança comercial será quatro vezes maior do que o previsto no fim do ano passado, o déficit em conta corrente U$$ 10 bilhões menor do que o estimado e o volume de investimento externo direto, o dobro do projetado há um ano.

Condicionante especial – o desenrolar da crise do euro ao longo do ano – está na base das previsões para a economia brasileira em 2012. São três os cenários principais: 1) a crise do euro não será inteiramente superada nem ocorrerá uma ruptura do sistema do euro; 2) a situação chegará ao ponto de ruptura; e 3) o Banco Central Europeu (BCE) adotará posição mais agressiva no socorro às economias encalacradas da região.

A hipótese número um – um cenário do tipo “empurra com a barriga” – é considerada a mais provável.  Nesse caso, os estímulos à disposição do governo brasileiro serão suficientes e capazes de compensar o impacto negativo que viria da economia internacional, permitindo a recuperação prevista nas projeções otimistas.

Um rompimento da zona do euro, de outro lado, jogaria a economia brasileira numa situação semelhante à vivida em 2008, com rápida trajetória para a recessão e o uso acentuado dos instrumentos de alívio fiscal e monetário. Já a alternativa de rápida reversão da crise na Europa traria expansão mais forte e mais acelerada para a economia brasileira, trazendo o risco de pressões inflacionárias, se a política econômica não for recalibrada a tempo.

Um arranjo virtuoso de juros mais baixos, aumento dos investimentos público e privado, corte de impostos ou isenção temporária de tributos e estímulos ao crédito, revertendo travas macroprudenciais, está na base da lógica macroeconômica que sustenta as otimistas futurologias econômicas do momento.

Encaixar tudo isso numa equação que não extrapole as metas de inflação e de superávit fiscal é que são elas. Mas algum transbordamento também já está previsto e não parece ser motivo para ninguém querer arrancar os cabelos.

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