Grau de investimento: me engana que eu gosto

José Paulo Kupfer

05 de maio de 2008 | 19h10

Cenas explícitas de oportunismo político e exploração da boa fé das pessoas marcaram o “day after” da concessão do “grau de investimento” ao Brasil, por uma firma de classificação de riscos. Um show na velha linha do me-engana-que-eu-gosto.

Começou com o presidente Lula dizendo que, agora sim, lá fora, o Brasil seria considerado um país sério – a gente nem desconfiava que o próprio Presidente achasse que não éramos tratados como sérios lá fora. E terminou com economistas-financistas advertindo que agora teríamos de “fazer a lição de casa” de cortar os gastos públicos, para merecer continuar com a nota graduada – como se o Brasil fosse um Juquinha meio indisciplinado, a quem a professora premiou, como estímulo a um esforço de bom comportamento, uma estrelinha dourada no caderno, mas ameaçasse tirar se ele não continuasse a se comportar direitinho.

No meio desse caminho, brilhou o presidente do Banco Central. O Dr. Henrique Meirelles saiu para o abraço do “grau de investimento” e se posicionou no foco dos holofotes para faturar a novidade. Deixou de lado a velha máxima que ele mesmo costuma usar, obviamente quando convém, segundo a qual presidente de banco central fala pelos atos e pelas atas da instituição. Já tem até gente avaliando que o próximo passo do homem é se lançar, em 2010, para o Senado Federal ou o governo de Goiás. Que sucesso!

Um coro passou a entoar o mantra da “lição de casa”: depois do “grau de investimento”, é preciso persistir na redução dos gastos públicos. “O fato de o Brasil ter sido campeão do mundo não significa que o título seja eterno”, comparou o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. “Se jogar mal, perde o título”. Em resumo, se antes deveríamos fazer qualquer negócio para obter o “grau de investimento”, agora é hora de fazer qualquer coisa para mantê-lo. A intenção do discurso é óbvia: capturar a política econômica para uma única forma de entender a economia e atuar sobre ela – a da ortodoxia financista.

Diz a lenda, embalada por esse discurso, que, com a melhoria da nota brasileira por uma agência de classificação de riscos, um dinheiro grosso e bom jorrará na economia. Vende-se ao distinto público que, depois do grau de investimento, as empresas e o Tesouro Nacional terão como se financiar com recursos externos abundantes a custos baixos e prazos longos. Os mais caras-de-pau insinuam que não haverá um pingo de investimento especulativo nessa nova onda, pois a “chuva de dinheiro” viria de aplicadores mais conservadores, que só colocam a sua suada grana onde agências de ratings (por sinal, de preferência, mais de uma) carimbam com um selo de bom pagador. Vai nessa.

Falou-se muito sobre a maravilha do “grau de investimento”, mas pouco, quase nada, sobre o carimbo e, menos ainda, sobre os carimbadores. Dá a impressão de que a Standard & Poor´s e as outras classificadoras de risco são instituições filantrópicas, dedicadas a distribuir felicidade financeira por meio de análises econômicas. Mas, é claro, elas disputam clientes no mercado e esse é um mercado que, sobretudo depois das confusões dos subprimes americanos, não está assim uma brastemp. Os clientes lá fora andam retraídos.

A regra do jogo é a mesma de outros mercados, nos dias de hoje. Quem chega na frente, tem mais chances de ganhar a clientela. Das agências de rating, os clientes compram compram, a preços salgados, assinaturas e pacotes de serviços de avaliação de empresas, estudos setoriais, publicações periódicas etc.

Analistas mais experientes e menos deslumbrados estranharam o “timing” da elevação da nota de crédito brasileira pela S&P. “Fiquei perplexo”, disse o economista Thomas Trebat à jornalista Patrícia Campos Mello, correspondente do Estadão, em Washington. “Estamos na virada de um ciclo e seria melhor aguardar para ver como a economia brasileira se comportará diante de um cenário de desaceleração”.

Tom Trebat, que hoje é diretor executivo do Instituto de Estudos Latino-americanos, da Universidade Columbia, em Nova York, acompanha a economia brasileira há pelo menos há 35 anos (tem um livro sobre empresas estatais brasileiras, de 1983), grande parte dos quais como analista de bancos, o último deles o Citigroup. Eu conheci Tom, assim como outros então jovens economistas estrangeiros dedicados a entender a economia – e a dívida externa – brasileira, ainda nos anos 70, na época como economista do gigante e finado Bankers Trust. Em minha opinião, estava entre os
mais preparados desse grupo de profissionais que vinha regularmente ao País colher informações e conversar com empresários, autoridades e jornalistas da área.

A estranheza de Tom Trebat bate com o que corre à boca pequena sobre a escolha, pela S&P, do momento para anunciar a graduação da nota brasileira. Ela teria se apressado, por uma questão de disputa de mercado, quando percebeu que a Fitch, uma das suas maiores concorrentes globais, estava em vias de reavaliar para cima sua classificação do risco brasileiro. A Fitch confirmou que está reunindo, no momento, informações com o objetivo de reavaliar o risco Brasil. Detalhe: a terceira grande irmã do setor, a Moody`s, comunicou que uma reclassificação da sua nota para o Brasil – como a Fitch, ainda um degrau abaixo do “grau de investimento” – não está na agenda previsível.

A história recente das economias emergentes distinguidas pelas agências de rating com o “grau de investimento” é cheia de altos e baixos. O México, por exemplo, que é “grau de investimento” há oito anos e integra um mercado comum com os Estados Unidos, tem recebido menos investimentos americanos do que a China e, no fim das contas, sua economia patina.

Aqui no Brasil, quando se tira a média das opiniões menos exageradas, diferentemente do que muitos apregoaram, fica-se com a impressão de que nem choverá tanto investimento, nem haverá mudanças tão fortes no câmbio e nos juros. A explicação, possivelmente verdadeira, é a de que o grau de investimento já era previsto e foi, mesmo que apenas em parte, antecipado pelos investidores.

Na volta do parafuso, apesar de todas as ressalvas necessárias, não faz sentido ser “contra” o “grau de investimento”. O que faz sentido é colocá-lo em seu devido lugar. E isso não significa embirrar com as realizações de nenhum governo. Trata-se apenas de não ajudar a vender gato por lebre.

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