‘Guerras cambiais” no cardápio da OMC

José Paulo Kupfer

08 de maio de 2013 | 14h58

Das leituras possíveis para a eleição do diplomata brasileiro Roberto Azevêdo para a direção-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), uma das mais naturais é a de que ele foi escolhido para ajustar o principal foro internacional do comércio aos novos de processos de produção fragmentada em escala global – cuja contrapartida é a proliferação de acordos bilaterais e regionais, enfraquecedores da organização multilateral –, ao novo peso das economias emergentes e aos impactos das “guerras cambiais”. O fato de o brasileiro ter sido eleito com o voto de países emergentes contra o apoio de Estados Unidos e União Europeia ao candidato mexicano, Herminio Blanco, é suficiente para respaldar a hipótese.

Azevêdo é o primeiro latino-americano a assumir a OMC, e a disputa entre dois representantes da região é mais um sintoma do encolhimento de poder das economias maduras dos dois  lados do Atlântico. Esta nova situação também ficou clara pela impossibilidade de os países maduros,

Azevêdo é o primeiro latino-americano a assumir a OMC, e a disputa entre dois representantes da região é mais um sintoma do encolhimento de poder das economias maduras dos dois  ados do Atlântico. Esta nova situação também ficou clara pela impossibilidade de os países maduros, derrotados na disputa, exercerem o tradicional poder de veto que, de forma em geral autoritária, impunham aos vencedores que não lhes agradavam. Encalacrados em suas dívidas e déficits, Estados Unidos e Europa dependem cada vez das economias emergentes para tentar sair do buraco.

derrotados entre os Encalacrados em suas dívidas e déficits, Estados Unidos e Europa dependem cada vez das economias emergentes para tentar sair do buraco.

O novo diretor-geral chega com a missão explícita de tentar reativar a Rodada Doha, de liberalização comercial, que estacionou mesmo antes da eclosão da crise global. É difícil, no entanto, imaginar que os debates mais importantes em sua gestão não passarão pela inclusão, até aqui rechaçada pela OMC, de limites para as ações de políticas de desvalorização de moedas. As “guerras cambiais”, municiadas por “tsunamis monetários” – a avalanche de liquidez promovida por bancos centrais –, são a regra atual nas economias ditas ricas, para tentar avançarem mercados externos e sair da crise.

Claro que a escolha de um brasileiro tem um significado para o Brasil. Com uma participação efetiva mínima – e cadente – no comércio internacional, não chegando hoje a 1% do total, o Brasil mostra que dispõe, mesmo com uma economia ainda fechada, de diversificação econômica, tamanho de mercado e liderança regional com potencial para colocá-lo como player na economia global.

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