Há saída fora das metas de inflação?

José Paulo Kupfer

09 de junho de 2008 | 18h35

Por mais que muitos se esforcem para impor a idéia, economia não é ciência exata. A possibilidade do uso de linguagem matemática na formulação de alguns de seus pressupostos não lhe tira a característica de construção social. Diferentemente, por exemplo, da Lei da Gravidade ou das três leis da Termodinâmica, que operam, de modo imutável e natural, se as condições de pressão e temperatura forem as normais, os fenômenos econômicos respondem aos movimentos do comportamento humano – e, em geral, do comportamento coletivo, de massa. Tanto isso é verdade que, nos tempos atuais, as fronteiras do conhecimento em economia têm bordejado mais a Psicologia do que a Física. Pelo menos é isso que os mais prestigiosos prêmios à pesquisa em economia estão indicando.

Todo esse narigão de cera vem a propósito do pensamento único monetarista, que ganhou corpo a partir de meados dos anos 70 e hoje ainda é em larga medida dominante. A história dessa dominação começa nos anos 70, com a quebra dos acordos de Bretton Woods e o grande calote americano, determinado pelo governo Nixon, que derrubou a relação entre o dólar e o ouro. O compromisso americano de manter reservas em ouro, numa dada relação com dólar, havia sido acertado na Conferência Internacional, liderada por Inglaterra e Estados Unidos, e realizada, com representantes de 44 países, Brasil inclusive, num pequeno lugarejo americano da Nova Inglaterra, em julho de 1944, menos de um mês depois do Dia D.

As formulações monetaristas – que desaguaram na busca de taxas “naturais” de emprego e crescimento (neutras em relação à inflação), hoje englobadas na denominação “produto potencial” – caíram uma a uma com o correr do tempo. Resistem apenas no ambiente ideológico, a partir do qual conseguiram impor uma hegemonia conservadora que capengou a cada nova crise e que, no momento, em meio a mais uma grande crise global, pode estar com os dias contados.

Os bancos centrais formam um clube fechado, dado a mania e modismos. Eles sucumbiram ao encanto do monetarismo, teoria simplista que teve seu ícone no economista Milton Friedman. É dessas idéias que derivam as metas de inflação. A receita se baseia em rala teoria econômica ou evidência empírica. Não há razão para esperar que, qualquer que seja a fonte de inflação, a melhor resposta seja elevar os juros.

O regime de meta está sendo testado. Países em desenvolvimento enfrentam taxas mais altas de inflação não devido a problemas em suas políticas macroeconômicas, mas porque os preços da energia e dos alimentos estão em alta, e esses itens pesam muito mais nos orçamentos domésticos do que nos países ricos. Na China, a inflação se aproxima dos 8% aos ano, na Índia está em 5,8%. Nos EUA, se mantém em 3%. Isto quer dizer que os países em desenvolvimento deveriam subir suas taxas de juros muito mais do que os EUA?

Nos países em desenvolvimento, a inflação é, na maior parte, importada. Elevar juros não terá muito impacto no preço internacional dos grãos e dos combustíveis. Dado o tamanho da economia americana, uma desaceleração ali teria provavelmente efeito muito maior nos preços globais do que uma desaceleração num país em desenvolvimento. O que sugere que os juros nos EUA é que deveriam ser elevados.

Elevar as taxas de juros pode reduzir a demanda agregada, o que sua vez pode desacelerar a economia e domar aumentos de alguns bens e serviços. Mas, a menos que sejam levadas a um nível intolerável, essas medidas não conseguem derrubar a inflação aos níveis projetados.

Alguns dos bilhões gastos com subsídios à agricultura deveriam ser usados para ajudar países pobres a satisfazerem suas necessidades básicas de alimento e energia. Tanto nações pobres quanto desenvolvidas devem deixar de lado o regime de metas de inflação. A desaceleração da economia causada por ele apenas tornará mais penoso o desafio de sobreviver nessas condições.

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Ah, quase ia esquecendo de avisar que, do quarto parágrafo em diante, o texto não é meu. Apenas resumi e reproduzi um artigo do economista Joseph Stiglitz, publicado na edição de sábado do “Globo”. Stiglitz não pode ser tachado de “tecnicamente fraco” ou “fora do mundo”, como os que se proclamam detentores dos saberes da “ciência” econômica costumam desqualificar os que não comungam de seu ideário. O homem, afinal, tem um Prêmio Nobel pendurado na parede do escritório.

Também em economia, como nas demais construções sociais do conhecimento, não há jamais um único caminho para chegar, digamos, à melhor explicação dos fenômenos. Pensamento único e hegemonia intelectual, ao contrário, nunca fizeram bem à civilização humana. Exemplos não faltam: por conta das trevas em que o pensamento único ocidental jogou o conhecimento que circulava na Idade Média, ainda hoje não foi possível resgatar, em sua plenitude, as magníficas luzes produzidas entre os séculos VII e XIII, fora do eixo de poder europeu.

Voltando à vaca-fria, convenhamos, não há mesmo razão para esperar que, sempre que os preços alcancem um dado nível, qualquer que seja a fonte da inflação, elevar os juros seja o único e exclusivo caminho para estabilizar os preços – sem falar nos efeitos deletérios dessa “solução” exclusiva sobre o crescimento econômico.

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