Heróis ou vilões?

José Paulo Kupfer

07 de dezembro de 2007 | 17h37

por Neoliberal

Nunca antes uma crise financeira foi tão anunciada. Há pelo menos um ano a imprensa vem noticiando os problemas com os tais créditos hipotecários “podres” do mercado imobiliário americano. Quem é previdente já havia colocado as barbas de molho há bastante tempo. Já os mais “impetuosos” se esbaldavam na farra nababesca em que se transformaram os mercados financeiro e de capitais mundo afora. Um dia, a festa acabaria e a ressaca viria cobrar a conta aos farristas.

Em qualquer mercado, os ganhos são sempre proporcionais aos riscos. Quem quer que se aventure pelos labirintos “especulativos” está cansado de saber disso. Se há um universo onde a ingenuidade passa longe é esse. Bancos, corretoras, seguradoras, fundos de pensão, fundos de investimento, etc. Ali só tem macaco velho, como se diz na gíria. Todos sabiam dos perigos a que estavam sujeitos, mas muitos, ainda assim, queriam ganhar até o último centavo possível, mesmo que o risco fosse o de acabar a festa segurando o “mico”.

Mas eis que, quando tudo parecia perdido, quando os intrépidos jogadores já começavam a sentir os efeitos da ressaca, surgem os super-heróis para salvar-lhes a pele e aliviar-lhes a dor. Como todo super-herói que se preze, suas intervenções foram para livrar a humanidade do cataclismo que se anunciava, ou melhor, para salvar o mundo da famigerada “crise sistêmica” e suas conseqüências imprevisíveis. A dose cavalar de aspirina (liquidez) que aliviou a enxaqueca dos tubarões imprevidentes foi apenas uma “externalidade”, um efeito não intencional, porém inevitável – como diriam os economistas -, da ação dos nossos super-heróis e suas poderosas máquinas de fabricar dinheiro.

Como, ao que parece, o oceano de dinheiro que inundou o mercado não foi suficiente para debelar a crise, o presidente americano resolveu seguir o conselho de seu colega brasileiro e pôs o Tio Sam na parada para solucionar, de uma vez por todas, o problema. Para salvar a pele dos incautos e inocentes cordeirinhos, que se endividaram além de suas possibilidades, George W. Bush lhes colocou à disposição um grande “pacote” de ajuda federal, financiado com dinheiro dos contribuintes (of course!). Pouco importa se, por tabela, esse saco de bondades venha também salvar a pele de um punhado lobos malandros, sentados sobre uma montanha de créditos podres. São as externalidades…

Não sei por que ainda fico admirado com essas espúrias interferências da indefectível mão visível, já que estou careca – digo: desprovido de cobertura capilar, para ser politicamente correto – de assistir a filmes como esse. Não, não pense o estimado leitor que sou daqueles que pensam existir, por trás dessas intervenções, alguma teoria da conspiração para proteger banqueiros e especuladores. Acho até que os nossos super-heróis, travestidos de agentes públicos, as praticam com as melhores intenções. Em suas cabeças, malgrado a arrogância que tal raciocínio demonstra, estão fazendo o que acham melhor para a humanidade.

Como todo bom intervencionista, nossos heróis idealizam os mercados como sistemas bem arrumadinhos e imunes a crises. Não enxergam que a dinâmica do capitalismo está muito mais para a “teoria do caos” – em que um complexo padrão de organização (espontâneo) é obtido a partir de uma aparente e inelutável desordem – do que para aqueles utópicos paraísos terrestres, perfeitamente harmônicos, imaginados por Platão ou Thomas Morus, que povoam os seus sonhos mais íntimos.

Certamente desconhecem também que os agentes econômicos são seres racionais, que medem as suas ações de acordo com os riscos envolvidos. Qualquer banqueiro, administrador de fundos de investimento ou mutuário de hipotecas tenderá a elevar os níveis de risco de suas carteiras caso espere que os governos venham em seu auxílio na “hora H”, se algo der errado. Uma tal expectativa – derivada da última intervenção, no início da década, quando os BC’s reduziram artificialmente os juros para evitar os efeitos do estouro da bolha da Internet – certamente contribuiu para que a bolha atual chegasse ao ponto em que chegou, bem como influenciará fortemente as decisões futuras, repercutindo de forma perversa na dinâmica dos mercados, especialmente em relação à alocação ineficiente dos recursos, já que as análises de risco levarão em conta, a partir de agora, certas condicionantes que não levariam caso a mão visível dos bancos centrais não se fizesse presente.
Além do efeito acima, chamado pelos economistas de “moral-hazard”, a ação da mão protetora dos governos produzirá também um outro efeito daninho: impedirá que o mercado realize a sua, como dizer?, expiação e, a partir dela, produza a dolorosa – porém necessária – depuração, eliminando os focos de ineficiência na alocação dos recursos. Em resumo, a interferência dos nossos super-heróis reduzirá as chances de o mercado gerar, no interior de seu próprio organismo, aquele efeito revitalizante que Schumpeter apelidou de “destruição criadora”.

Infelizmente, as decisões intervencionistas automaticamente excluem a solução alternativa da não intervenção, freqüentemente sugerida pelos liberais, razão pela qual é impossível estabelecer um comparativo empírico entre as duas possibilidades, sobrando somente a análise teórica. Uma coisa porém é certa: o mesmo excesso de liquidez proporcionado pela queda artificial dos juros, ditada pelos bancos centrais a partir de 2001, que impulsionou fortemente o crescimento econômico mundial dos últimos cinco anos, está na raiz da famigerada bolha imobiliária e a respectiva crise de confiança no mercado de créditos dela decorrente. Nossos heróis são, portanto, ao mesmo tempo mocinhos e bandidos.

Mas como é que indivíduos bem intencionados e que visam somente o melhor para todo mundo podem se transformar em vilões? A resposta a esta pergunta foi dada por Hayek. Por mais poderosos e bem armados que pareçam os agentes públicos, na economia globalizada de hoje, mais ainda do que na época em que o brilhante pensador austríaco ensinava sobre as virtudes da ordem espontânea, “não há entre os humanos ser capaz de conhecer todos os fatos do mercado ou todas as circunstâncias que os envolvem”, nem tampouco os efeitos de longo prazo de certas políticas. Daí os riscos incomensuráveis de qualquer intervenção governamental nos mercados, especialmente aquelas de amplo espectro, como esta que acabamos de presenciar.

Para complicar ainda mais as coisas, é sabido, pelo menos desde os tempos do suiço Benjamim Constant, que os erros dos agentes públicos possuem uma capacidade quase ilimitada de produzir danos (para alguns muitos lucros, verdade seja dita!), os quais espalham seus efeitos negativos sobre uma gama extraordinária de pessoas. Mas o pior de tudo, mesmo!, é que leva muito mais tempo para corrigir os danos causados por uma decisão equivocada de governo do que os prejuízos causados pelas ações e escolhas dos indivíduos no mercado.

Ora, já que os mercados (constituídos de indivíduos) não são perfeitos e os governos (também formados indivíduos) tampouco, por que devemos confiar mais nos últimos? Que garantias temos de que os “sábios” do governo, de dentro de seus gabinetes, irão decidir adequadamente o que é melhor ou pior para milhões, as vezes bilhões, de pessoas, tendo em vista não só os efeitos imediatos destas decisões, mas especialmente os de longo-prazo? Se mesmo os economistas mais renomados raramente se entendem sobre as melhores políticas, por que não deixar que o mercado, ou melhor, as pessoas, errem e corrijam esses erros por si mesmas? Por que confiar que determinados homens, somente porque investidos de poder político, são mais capazes do que o resto dos mortais?

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