Hibernação da economia e alívio de pressões sobre a inflação fazem Copom confirmar consenso e manter juros

José Paulo Kupfer

31 de outubro de 2018 | 19h19

A manutenção, pela sexta vez consecutiva, da taxa básica de juros em 6,5% nominais ao ano, decidida por unanimidade neste início de noite de quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária (Copom), era a expectativa e a aposta de cem por cento dos analistas. As pressões que empurraram as projeções da inflação em 2018 de 4% para mais próximo do centro da meta, de 4,5%, arrefeceram e derrubaram qualquer quaisquer hipótese de alteração na taxa Selic.

Essas pressões eram de duas naturezas. A primeira tinha origem na escalada ensaiada pelas cotações do dólar com a aproximação do período eleitoral e as incertezas sobre seu desfecho. A moeda americana chegou a valer R$ 4,18, em meados de setembro, mas desde então e cada vez mais com a perspectivas de vitória do candidato Jair Bolsonaro, recuou até R$ 3,70, nível em que parece ter se estabilizado, no momento.

A outra pressão vinha de preços administrados, principalmente energia elétrica e combustíveis. A fixação da bandeira vermelha nível 2 perdurou até outubro, mas a regularização de chuvas trouxe surpresas positivas. Quando se esperava que fosse adotada bandeira vermelha nível 1 em novembro e só em dezembro, a bandeira amarela, o grau tarifário adotado no mês em curso já foi o amarelo. Quanto aos combustíveis, na esteira da acomodação da taxa de câmbio, os preços também se acomodaram.

Até mesmo no cenário externo, a situação no curto prazo apresentou um alívio nas tensões recentes, que derivam da perspectiva de intensificação da normalização dos juros nos Estados Unidos e do andamento da guerra comercial dos americanos com a China. Embora o Banco Central, segundo o comunicado emitido logo depois da reunião desta quarta-feira, continue a classificá-lo como “desafiador”, os integrantes do Copom não consideram mais, como notaram no comunicado da reunião anterior, que os riscos para a inflação se elevaram. Ao contrário, julgam que a “assimetria” antes detectada no balanço dos riscos internos e externos para a inflação “diminuíram desde a última reunião”.

O comunicado do Copom desta quarta, com apenas esta alteração — e de teor mais benigno — em seus termos, marca um momento de pausa nos movimentos da economia. Essa situação de quase hibernação da atividade econômica reflete o fim de um governo enfraquecido e a espera geral ante o desenrolar da transição para os novos representantes eleitos do poder em Brasília.

Não é por outra razão que o BC, no comunicado em que justifica a decisão desta quarta-feira, ao se referir aos próximos passos do Copom, em dezembro, repete o mesmo fraseado do comunicado anterior, com o qual deu a entender que não alteraria a taxa básica agora em fins de outubro. Em relação a esses futuros passos, a expectativa entre os analistas é a de que a taxa Selic se mantenha inalterada pelo menos até meados de 2019 e que, quando se mexer, andará mais devagar do que antes se imaginava.