Histórias de inflação

José Paulo Kupfer

16 de abril de 2008 | 21h01

O chuchu é uma cucurbitácea. O tomate é uma solanácea. O feijão é uma leguminosa, da família das papilionoídeas. Já houve uma inflação do chuchu, nos idos dos anos 70. Agora há uma inflação do tomate e do feijão, do milho e da soja – será que a história se repete sempre como farsa?

Não há muito mais o que dizer sobre a decisão do Copom de subir meio ponto (meio ponto!) a taxa básica de juros, elevando-a de 11,25% para 11,75% e abrindo ainda mais a distância para as taxas internacionais. Haja arbitragem de taxas.

A derrubada do dólar, na sessão de hoje, no mercado cambial, para a menor cotação em nove anos, era o prenúncio do que viria e do que ainda pode vir no lado externo da economia. Sem falar no crescimento, que, não se venha com conversa mole, sofre um claro baque.

Nos tempos da inflação do chuchu, o ministro da Fazenda era o professor Mário Henrique Simonsen (e a gente nem lembra o nome do presidente do Banco Central. Obs: Paulo Lira, que fumava cachimbo como o ex-ministro Pedro Malan). Nos tempos da inflação do tomate e do feijão, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não apita na jogada. O dono da bola é o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Nos tempos da inflação do chuchu, os jornalistas aprenderam que o chuchu era uma cucurbitácea, como o pepino e a melancia. Escrever “aquela cucurbitácea” ficava estranho, mas tinha até uma graça. Enfim, era o jeito para não repetir demais a palavra “chuchu”. A sugestão é que, agora, os jornalistas, para não repetir tanto a palavra “tomate” e “feijão”, quando precisarem repeti-las mais uma vez, usem “aquela solanácea”, no caso do tomate, e “aquela leguminosa da família das papilionoídeas”, para o feijão. Se o texto for construído com cuidado, pode ficar simpático.

Quando o chuchu estourou os índices de inflação no meio da chamada primeira crise do petróleo, Simonsen, embora sempre muito preocupado com a “sensibilidade da base monetária”, ou seja, com a expressão monetária do fenômeno da alta persistente de preços, perdeu a paciência. Ele sabia que, se o preço de um alimento – e logo um tão pouco essencial – subisse dez vezes em poucos meses, ele seria naturalmente substituído ou simplesmente posto de lado pelos consumidores. Ou seja, aquela inflação violenta era falsa.

O problema é que os índices de preços eram – como são – calculados com bases em pesquisas de orçamento familiar (POF) e essas pesquisas, por dificuldades logísticas e de custo, não podem, é claro, serem refeitas todos os dias. Hoje, as POFs mais amplas são feitas de cinco em cinco anos, e outras, mais simplificadas, anualmente. Mas, naquele tempo, nem periodicidade regular havia e, normalmente, as POFs valiam por dez anos. Assim, no índice de inflação, o chuchu pesava, como se, mesmo valendo seu peso em ouro, continuasse sendo consumido na mesma quantidade de sempre.

Como Simonsen era um homem sofisticado, não fez como os americanos fazem até hoje. Não cortou, simplesmente, o chuchu do índice de inflação, como ocorreria nos Estados Unidos. Lá, quando um preço foge, por motivos sazonais, do padrão, ele é, muito singelamente, retirado, com casca e tudo, momentaneamente, do índice. Simonsen decretou que todos os produtos que compunham o índice de preços teriam “elasticidade-preço” unitária. Ou seja, a quantidade considerada no cálculo do índice variaria, a cada momento, inversamente e na mesma proporção do aumento (ou redução) do preço. Não era esse o caso específico do chuchu, cuja elasticidade-preço é bem maior do que a unitária, mas, politicamente, era o parecia dar para fazer. No fim das contas, a idéia, que até que fazia sentido, mas era quase impossível de implementar na prática, durou pouco.

A crônica da inflação brasileira tem muito dessas histórias. Antes mesmo de Simonsen, em fins dos anos 60 e início dos 70, quando o então ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto, ficou conhecido como o “czar da economia”, a vida também era dura para quem tinha a obrigação de domar a inflação. Na época, o Índice Geral de Preços (IGP), no conceito de disponibilidade interna, calculado pela Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro (FGV-RJ), era o índice oficial. E, no índice oficial, entrava o índice do custo de vida, coletado exclusivamente na cidade do Rio de Janeiro.

Um detalhe curioso é que, por ser coletado só no Rio, o índice sofria o impacto direto dos momentos de escassez de feijão preto. O problema era o feijão preto, não o mulatinho, o manteiga ou o carioquinha, porque os cariocas – e quase só eles, no País inteiro – tinham o hábito de consumir feijão preto no dia-a-dia. E lá ia o czar da economia atrás de feijão preto no Chile, no México, onde a “especialidade” fosse cultivada, para controlar a inflação.

Não havia, como dá para perceber, a moleza de hoje, quando basta puxar a taxa de juros se a inflação ameaçar sair da linha. Mesmo que seja uma inflação importada (quando mais subir os juros, mais inflação será importada) e de alimentos (cujos preços, por natureza, tendem a ceder com o tempo, por conta da sua substituição ou abandono temporários).

A decisão do Copom cheira a um tiro de canhão para matar passarinho.

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