IBC-Br de agosto: atividade acima do previsto em economia ainda sem força

José Paulo Kupfer

17 Outubro 2018 | 17h49

Uma coisa não tem a nada a ver com a outra, mas houve uma semelhança entre as pesquisas de intenção de voto para governador e Senado e as projeções para o IBC-Br de agosto. Ambas erraram feio. Ainda bem que, no caso das projeções para o indicador de atividade econômica calculado mês a mês pelo Banco Central, a variação do índice veio melhor do que a estimativa.

Depois de crescer 0,65% em julho (valor revisado), o IBC-Br avançou 0,47% em agosto. A mediana das projeções indicava alta de apenas 0,2%, menos da metade, portanto, do movimento captado pelo BC. Considerado o trimestre móvel encerrado em agosto, já levando em conta a recuperação de 3,45% do índice em junho (sobre uma base deprimida negativa de 3,3% em maio), a atividade econômica, medida pelos componentes da oferta, mostrou alta de 1,5%.

As explicações para o resultado acima das previsões confluem para os efeitos positivos da liberação dos recursos do PIS/Pasep, à maneira, embora em grau mais modesto, do impulso no consumo — e no PIB — produzido em 2017 pela entrada na economia do dinheiro encapsulado nas contas inativas do FGTS. Mas esta não é a única explicação para a distância entre as projeções e o IBC-Br divulgado.

Algumas hipóteses para o erro de cálculo remetem tanto a fatores sazonais tópicos quanto a imprevistos do cotidiano e alterações, ainda que sutis, em condições macroeconômicas. O volume de serviços, por exemplo, conforme apuração da pesquisa mensal conduzida pelo IBGE, cresceu 1,6% em agosto contra previsões de alta de apenas 0,2%.

O principal puxador do setor que mais pesa no PIB foi o item transportes e nele o destaque ficou com o segmento de transporte aéreo. Esse subsetor costuma operar como uma gangorra e intercala meses de grandes altas com outros de queda pronunciada, obedecendo em parte às estratégias das empresas aéreas. Mas também deu um salto o segmento dos correios e a área de comunicação e informação, onde estão gráficas e produção audiovisual, movidos, pontualmente, pelo período eleitoral.

No caso do varejo, que subiu 1,3% em agosto ante projeções de estabilidade, a já mencionada liberação do PIS/Pasep se juntou à uma data de média força no calendário comercial do ano — Dia dos Pais — para alavancar o setor. Não se pode, contudo, deixar de considerar o fim do ciclo de deflação em alimentos, que impulsionou pela alta mesmo leve de preços o importante segmento de supermercados.

Todos esses fatores servem também para lembrar que indicadores de mais alta frequência, como os mensais, não podem ser analisados sem cuidados e critério, mesmo com dados dessasonalizados, ao se tentar estabelecer tendências e trajetórias para o comportamento da economia. A propósito, o recuo na produção industrial, que caiu 0,3% em agosto, foi, segundo o Iedi, relativamente disseminado, mas uma pontual parada técnica em refinaria paulista teve seu peso no resultado negativo.

Mesmo com crescimento do IBC-Br nos três meses entre junho e agosto, não há ainda força suficiente para alavancar a atividade econômica sustentada. Desemprego e capacidade ociosa, em conjunto com o silêncio dos investimentos em período de incertezas eleitorais, continuaram a moderar os impulsos de expansão dos negócios.

Para setembro, por exemplo, todas as projeções apontam recuo do IBC-Br, sobretudo em razão das dificuldades de exportação de veículos para a combalida economia argentina. Depois dos últimos resultados, de todo modo, as perspectivas para o terceiro trimestre melhoraram. Projeções agora indicam crescimento de 0,5% até 1% no período, ante um máximo de alta de 0,3% anteriormente. Com isso, as expectativas para  a expansão econômica em 2018 possa se firmar num degrau um pouco acima de 1%, na linha da atual mediana de 1,3% assumida pelos analistas de mercado.