IBC-Br de junho: recuperação sem compensar perdas

José Paulo Kupfer

15 Agosto 2018 | 12h00

A atividade econômica, fortemente afetada pela greve dos caminhoneiros, no último terço de maio, recuperou-se da queda abrupta em junho, voltando a rodar nos níveis de abril, mas não conseguiu compensar as perdas ocorridas no período da paralisação. Eis aí o resumo do que mostra o IBC-Br de junho, divulgado nesta quarta-feira pelo Banco Central. A trajetória da economia apresenta um desenho em “V”, com a alta forte em junho depois de uma queda forte em maio. As perspectivas, porém, são de que, nos meses subsequentes, o desenho mostre um “V” capenga, com a perna da direita perdendo fôlego.

Indicador mensal de atividade econômica, o IBC-Br pondera os resultados das pesquisas mensais do IBGE da produção industrial, da evolução do varejo e dos serviços, assim como de estimativas da atividade agrícola. Antecipa, de certo modo, observando o lado da oferta, o comportamento da economia, apurado pelo cálculo da variação, em base trimestral, do Produto Interno Bruto (PIB). Em relação ao primeiro trimestre, o IBC-Br apresentou, no segundo trimestre, retração de 1%.

Projeções para a evolução do PIB no período abril/junho sobre o nível alcançado no primeiro trimestre de 2018 convergem para a estabilidade, podendo ficar ligeiramente abaixo ou acima de zero. Na ponta mais otimista, o Banco Itaú estima alta de 0,3%. O dado oficial do PIB do segundo trimestre está previsto para ser divulgado em duas semanas, no último dia de agosto.

Obter uma ideia mais nítida do nível da atividade, depois do choque de oferta causado pela paralisação do transporte rodoviário de carga em maio, dependerá do retrato estatístico do comportamento econômico em julho e agosto. Expectativas de uma recuperação mais animada no segundo semestre, retomando sinais emitidos em abril, são contrariadas pelos indícios de que o colapso no abastecimento ocorrido em maio, ainda que pontual, afetou a confiança de consumidores e empresários, colaborando para antecipar os efeitos negativos para a produção das incertezas eleitorais. Na maior parte, os indicadores de confiança depois de maio apontam para baixo.

O quadro real da economia é, de fato, mais propenso a sinalizar avanço fraco no restante de 2018. A ociosidade nas empresas ainda é alta, assim como a inadimplência, sobretudo das empresas, e o desemprego, no mercado de trabalho, não só cede muito lentamente como se dá com aumento dos níveis de informalidade. No último boletim Focus, a projeção mediana do crescimento da economia em 2018 recuou para 1,49%, mas este número ainda deve cair ao longo do tempo. Na revisão de cenário de agosto, por exemplo, o Itaú baixou sua previsão para 1,3% e há crescente concentração de estimativas em não mais de 1% de expansão no conjunto do ano.