Inadimplência no teto?

José Paulo Kupfer

26 de maio de 2012 | 12h42

A inadimplência nos financiamentos para a compra de veículos sobe em abril e bate recorde. A informação, divulgada na sexta-feira pelo Banco Central, pode dar a entender que o problema da inadimplência, no Brasil, se agrava.

Pode dar também a entender que, nesse ambiente, estimular mais a tomada de financiamentos para a compra de veículos, como quer o governo, além de não conseguir estimular muito coisa alguma, poderá levar a mais inadimplência. Trata-se, portanto, de uma estratégia errada e, pior, de potenciais consequências negativas para as famílias e a economia do País.

Os atrasos acima de 90 dias no pagamento das prestações têm, de fato, aumentado desde 2010. Mas – e aqui começa uma série de “mas” … – ainda é relativamente baixo. Um índice de 6% de atrasos no total dos contratos de financiamento, em condições normais de pressão e temperatura, não pode ser considerado perigoso.

Além disso, tanto quanto os atrasos acima de 90 dias apresentaram ligeiro aumento de março para abril, os atrasos entre 15 e 90 dias, que normalmente indicam a tendência futura da curva de inadimplência, observaram ligeiro recuo no mesmo período. No fim das contas, acertará mais quem entender que os índices de inadimplência podem ter entrado numa etapa de redução de ritmo e, relativamente, já apontariam para uma estabilidade.

O que há de perigoso nesse campo não é o nível da inadimplência e sim o ritmo de alta. Em 16 meses, o índice mais de que dobrou, saindo de um patamar baixíssimo, de 2,5%, em dezembro de 2010. De todo modo, a aceleração fica clara quando se verifica que, apenas nos primeiros quatro meses de 2012, a inadimplência nos financiamentos de veículos subiu quase um ponto. A ver, portanto, nos próximos meses, se a tendência de acalmar se confirma ou se ocorrerá uma nova aceleração.

Foi nesse ambiente mais tenso dos primeiros meses do ano que os bancos puxaram o freio nos empréstimos, a indústria e o varejo do setor acumularam estoques e o governo decidiu repetir a fórmula de cortar tributos e forçar os bancos a emprestar, valendo-se da força competitiva das instituições financeiras públicas.

Existem, no entanto, elementos novos nessa história. Um dos mais importantes é a trajetória de redução das taxas de juros. Elas vêm caindo, ainda que não na velocidade desejável, já há um nítido recuo nos juros. No mesmo relatório em que aponta o aumento da inadimplência acima de 90 dias, o BC registra que a taxa média nos empréstimos com crédito livre recuou de 37,3% ao ano em março para 35,3% ao ano em abril. A taxa é a menor desde dezembro de 2010, quando chegou a 35%.

Pode-se imaginar que taxas de juros mais baixas estimulam os consumidores a tomarem crédito, ampliando o potencial de aumento dos índices de inadimplência. Se algo assim pode acontecer, o mais provável é que, com juros menores, não só os novos empréstimos sejam de mais fácil pagamento, como ocorra um estímulo para a troca de financiamento velho – e mais caro – por novos – e mais baratos.

Antes de todas as considerações sobre as tendências futuras da inadimplência, é interessante observar que não há qualquer sinal de descontrole nesses índices. O endividamento do consumidor brasileiro tem crescido, mas ainda não passa de 20% do PIB – a relação só se torna aguda, segundo padrões internacionais, quando alcança 85% do PIB.

Além disso, o comprometimento da renda do brasileiro com dívidas estacionou há anos no intervalo entre 20% e 22%. A experiência de contratar financiamentos cuja prestação caiba no orçamento doméstico explica o fato. Como parte desse porcentual se deve aos juros altos, com as taxas em queda, esse comprometimento também pode vir a cair.

Com as informações de abril, não é possível apostar todas as fichas em que a inadimplência bateu no teto e agora tende a desinchar. Mas há bons indícios apontando nessa direção.

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