Independência para errar

José Paulo Kupfer

25 de fevereiro de 2014 | 17h21

São sempre fortes os impactos produzidos nos mercados por relatórios oficiais de uma instituição com o peso e o prestígio do Federal Reserve. Ninguém duvida de que qualquer “paper” com a assinatura do banco central americano tem alto poder de convencimento e disseminação.

Difícil imaginar, por isso mesmo, que os conselheiros do Fed não saibam avaliar o tamanho do estrago que podem provocar quando divulgam um relatório polêmico, tecnicamente frágil, sobre economias emergentes, como foi o caso do último relatório semestral de política econômica, de meados deste mês. No documento, a partir de índices pouco transparentes, o Fed produziu um ranking de emergentes frágeis, em que o Brasil aparecia como o mais vulnerável depois da Turquia.

Alguns dias depois desse episódio, na sexta-feira, o Fed tornou públicas as transcrições dos debates ocorridos nas reuniões de análise e ajuste da política monetária, realizadas no âmbito do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), o Copom deles, no emblemático ano de 2008. As transcrições desnudam os erros de avaliação cometidos ao longo de todo o ano em que a maior crise global desde a Grande Depressão ganhou corpo até explodir, em 15 de setembro, com a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers.

Pode parecer longínqua a relação entre os dois episódios, mas entre eles há importante ponto em comum: uma sucessão de falhas na análise do clima econômico. Por isso, a confirmação de que os membros do Fomc, mesmo de posse de presumíveis melhores informações e de suposto domínio das mais avançadas técnicas de análise econômica, não perceberam a amplitude e profundidade da crise traz um incômodo a todo o sistema de governança dos bancos centrais. Não faltariam filtros e procedimentos preventivos para estreitar a margem de erro e propiciar maior segurança às decisões?

Com a transcrição dos debates, tem-se uma demonstração clara de que a independência de que desfrutam os dirigentes do Fed objetiva, corretamente, evitar que suas avaliações e decisões sofram influências externas de qualquer natureza. Mas também deixam visível um lado escuro dessa moeda: a mesma independência, que torna as decisões irrevogáveis e não sujeitas a escrutínios externos, pode ser usada para errar.

Na reunião do Fomc, em 16 de setembro, um dia depois da quebra do Lehman Brothers, segundo relato do jornal The New York Times, muitos dos conselheiros do Fomc ainda acreditavam que a economia americana continuaria a crescer, apesar do alastramento da crise financeira. Por unanimidade, decide-se então não cortar as taxas de juros e vários conselheiros comemoram o fato de o governo ter deixado o Lehman Brothers quebrar, como um estímulo para que Wall Street recuperasse o senso de responsabilidade.

Diante do estouro da bolha no mercado imobiliário, da queda livre das ações em Wall Street e da elevação das taxas de desemprego, os membros do Fomc, naquele 16 de setembro, ainda se mostram mais preocupados com os efeitos inflacionários de uma economia pretensamente aquecida do que com os evidentes sinais de uma extensa e profunda crise. Nos debates ocorridos naquela reunião, contam-se 129 menções à palavra “inflação” e apenas cinco ao termo “recessão”.

Antes do final de 2008, contudo, o Fomc, enfim, reconheceria a gravidade da situação. Em fato inédito desde a Grande Depressão, os juros são cortados para próximo de zero, em meio a reuniões extraordinárias, de emergência, não previamente agendadas, em coordenação com outros bancos centrais.

O mesmo tipo de leitura equivocada dos acontecimentos marcaria a atuação de diversos outros bancos centrais. No Brasil, a cinco dias da falência do Lehman Brothers, os juros foram elevados em 0,75 ponto, para 13,5% ao ano, nível mantido nas reuniões do Copom de outubro e dezembro. Só começariam a ser reduzidos em janeiro de 2009, numa sequência de cortes que se estende até julho, quando então estacionam em 8,75%, mas sem impedir que a economia encolhesse 0,3% naquele ano, no primeiro recuo em 17 anos.

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