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Inflação dá novo repique em maio, mas tendência de baixa não se altera

José Paulo Kupfer

08 Junho 2016 | 15h45

A marcha da inflação, no Brasil, parece um enigma sem fim. Episódios históricos de estagflação, em meio a surtos de hiperinflação, ajudam a manter o tema envolto numa certa aura de mistério. Nesse sentido, o ocorrido em 2015, quando a economia despencou e os preços foram às nuvens, colaborou no reforço desse incômodo verde-amarelo. Depois de março deste ano, quando a inflação, medida pelo IPCA, desceu dos dois dígitos e apontou uma trajetória descendente, houve dois repiques na variação mensal. Com número de itens em alta abaixo da média histórica dos últimos anos, o IPCA de maio, divulgado pelo IBGE nesta quarta-feira, apresentou alta sobre abril, variando 0,78% no mês, e registrou ligeiro aumento em 12 meses, avançando de 9,28%, em abril, para 9,32%.

Foi o bastante para alimentar temores de que a inflação poderia voltar a ingressar num novo período de altas e a dar suporte a conjecturas sobre suas resistências à se livrar de pressões altistas. Esses temores, contudo, não encontram base nas análises e projeções dos que acompanham mais de perto a evolução das altas de preços, para os quais há poucas dúvidas de que a tendência de queda sucessiva não se alterou e ficou apenas ligeiramente mais lenta.

Depois de conhecido o resultado de maio, a curva do IPCA projetada até o final de 2017 mostra que as taxas de variação, a cada mês sobre o mesmo mês do ano anterior, devem ser menores. Assim, a tendência prevista no momento é de que a inflação, pelo IPCA, em 12 meses, recue consistentemente. As estimativas indicam que fechará 2016 na altura de 7,5%, chegando ao final de 2017 nas vizinhanças de 5,5%.

Não é que não existam pressões sobre os preços. Os alimentos, por exemplo, continuarão em terreno altista, nos índices ao consumidor. Essa quase certeza vem do resultado do IGP-DI de maio, índice calculado pela FGV-RJ, no qual o preço dos grãos no atacado, notadamente a soja, deu um salto no mês passado. As variações de preços no atacado, como se sabe, aparecem nos índices ao consumidor nos meses seguintes.

Mesmo com essa pressão específica, a inflação em junho deve cair junto com o refluxo em várias categorias de bens e serviços que afetaram negativamente os índices de preços em maio. É o caso das tarifas de água e esgoto, energia elétrica e medicamentos, no grupo dos administrados, e dos preços em vestuário e alimentos in natura, entre os livres, em contrapartida a reajustes em combustíveis, transportes aéreos e os já mencionados grãos.

As projeções convergem para um IPCA apenas 0,35% mais elevado no mês em curso, o que, se confirmadas, promoveriam nova baixa, agora mais expressiva, na inflação acumulada em 12 meses, para menos de 9%.