Inflação em queda livre rima com recessão

José Paulo Kupfer

08 de fevereiro de 2017 | 16h26

A inflação, medida pelo IPCA, em janeiro de 2017, veio abaixo das projeções de mercado e confirmou a tendência de queda forte, em que ingressou nos últimos meses de 2016. Mesmo acima da alta de 0,30% em dezembro, a elevação de 0,38% em janeiro é a mais baixa para o mês desde o início da série histórica em 1979. Em 12 meses, a inflação recuou de 6,29%, no fechamento de 2016, para 5,35%.

Se a variação do IPCA em fevereiro não ultrapassar 0,5%, o que está nos cálculos dos analistas, o acumulado em 12 meses descerá abaixo de 5%. Embora o Boletim Focus, que reúne as projeções de um centena de analistas, aponte inflação de 4,64% no encerramento de 2017, o resultado do primeiro mês do ano reforça a expectativa de que a inflação encontre o centro da meta, de 4,5%, ao longo de 2017. Seria a quinta vez desde a adoção do sistema de metas de inflação, em 1999, que a variação do IPCA corresponderia ao centro da meta.

A marcha acelerada dos índices de preços ladeira abaixo se deve, em primeiro lugar, ao fim dos efeitos estatísticos dos fortes ajustes na taxa de câmbio, nos preços administrados e dos choques de oferta de alimentos que predominaram em 2015 e levaram a inflação daquele ano a escalar os dois dígitos. Eliminados esses efeitos, fatores climáticos favoráveis e uma excelente safra de grãos têm ajudado a manter bem comportados os preços dos alimentos, contribuindo para distensionar os índices de inflação. Mas são de longe os efeitos da recessão que mais bem explicam o fenômeno auspicioso.

O ajuste fiscal em curso pode auxiliar na formação de índices favoráveis de confiança, mas ainda não contribui diretamente para evitar pressões de demanda. Na verdade, o governo, em meio a todo o discurso contracionista, ainda mantém a política fiscal no terreno expansionista.

Com a acentuada retração dos índices de inflação e a recessão ainda predominante na maior parte da economia, abriu-se um espaço relativamente largo para que o Banco Central acelere o ritmo de corte nas taxas básicas de juros. As estimativas são de que os juros básicos terminarão 2017 em um dígito, possivelmente nas vizinhanças de 9,5%, com corte acumulado de 3,5 pontos porcentuais ao longo do ano.

Depois do resultado do IPCA de janeiro e das projeções favoráveis para a inflação nos meses à frente, aumentaram as apostas de que o BC corte a taxa Selic em 1 ponto porcentual, na reunião do Comitê de Política Monetária marcada para a semana que antecede a do carnaval, levando-a a 12% ao ano.

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