Inflação: em queda, mas com repiques

José Paulo Kupfer

10 de agosto de 2016 | 18h14

A alta da inflação em julho superou — e muito — as projeções, alterou — para cima — as estimativas para agosto, mas não mudou a tendência de queda prevista para 2016 e 2017. A alta de preços dá sucessivos sinais de que se encontra num trilho descendente, mas a descida da ladeira possivelmente será lenta e com alguns calombos no meio do caminho. Diante de um quadro assim, o desejado início de um ciclo de corte nas taxas básicas de juros deve se dar logo ou mais à frente? É ampla a dispersão das respostas, entre os analistas. Enquanto uns consideram que, se a descendente é certa, antecipar o alívio da política monetária traria mais vantagens, outros avaliam que os riscos de repique recomendam atitude mais cautelosa do Banco Central.

Com variação de 0,52% de junho para julho, o IPCA levou a inflação a um avanço de 4,96%, de janeiro a julho e a descer, ligeiramente, em 12 meses, atingindo 8,74%. Para agosto, projeta-se uma alta de 0,40% e, com isso, um repique em 12 meses, para 8,93%. Mas o ano ainda fecharia com elevação em torno de 7,5%, numa linha de descida que chegaria, em 2017, nas vizinhanças de 5,5%, com inclinação para baixo, mas ainda relativamente longe dos 4,5% que determina o centro da meta.

O choque de alimentos, em meados do primeiro semestre, que afetou culturas de ciclo curto — caso do feijão —, e a produção de leite, está se dissolvendo, mas em ritmo mais lento do que o inicialmente esperado. O mesmo ocorre com a reposição de quebras em culturas com grande influência sobre o conjunto da cadeia alimentar, como a soja e o milho.

Há outros efeitos parciais e pontuais, por exemplo, na área de transportes e em habitação — com o vaivém nos preços da energia elétrica e das passagens aéreas —, mas estes estão sempre presentes e não determinam as tendências de prazo mais longo. O que leva a inflação a resistir, mesmo com a economia no fundo do poço e a demanda contraída, é a ainda disseminada indexação da economia, não inteiramente eliminada no golpe contra a inércia inflacionária aplicado pelo Plano Real.

Cerca de um terço dos itens que compõem o IPCA sofrem os efeitos de correções automáticas por índices de inflação ou outros, como o salário mínimo. Essa situação deriva do comportamento histórico de uma população acostumada a se valer de mecanismos de correção monetária para driblar os conflitos distributivos produzidos por uma inflação elevada.

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