Inflação, essa desconhecida

José Paulo Kupfer

09 de janeiro de 2009 | 19h16

Participei, hoje de manhã, de um bate-papo com internautas do IG sobre inflação, a propósito da divulgação do IPCA de dezembro e, em consequência do fechamento do ano. O índice apurado pelo IBGE veio baixinho e, no final, o IPCA fechou 2008 em 5,9%, dentríssimo do intervalo da meta de inflação, cujo teto era de 6,5%.

Não chega a ser novidade, mas é muito interessante o comportamento das pessoas em relação à inflação. Para cada um de nós, os preços estão sempre em alta. Atendendo ao comportamento padrão, vários internautas perguntaram se a inflação ia continuar subindo, oferecendo testemunhos pessoais… Bem, a inflação está caindo, como era de se esperar, e forte. A que se deve esse comportamento? Por que a inflação, nas nossas cabeças e nos nossos sentimentos, está sempre subindo?

Faz tempo procuro uma resposta. A melhor que encontrei até agora começa com a constatação de que inflação é um conceito abstrato, não intuitivo, que nos engana com a sua naturalidade cotidiana, sobretudo a nós, brasileiros com mais de 30 anos, que vivemos parte de nossas vidas sob hiperinflação. Consultando a intuição, a gente tem a impressão de que inflação é mais ou menos a mesma coisa do que preço alto. Mas, na verdade, inflação é um fenômeno monetário que expressa uma alta persistente de preços – não preços elevados.

Parece um mero jogo de palavras, mas são coisas bem diferentes. Preços podem estar altos e não haver inflação – e vice-versa. É o que explica, por exemplo, a “mágica” do Plano Real, que reduziu para muito baixa, menos de 20% no acumulado do segundo semestre de 1994, uma taxa de inflação que, no primeiro semestre daquele ano, chegava a mais de 40% ao mês e superava 7.000% em doze meses.

Um exemplo prático ajuda a entender o conceito. O preço de um dado produto é de R$ 50, em janeiro, mas vai a R$ 150 em fevereiro. A inflação, no mês, teria chegado a 200%. Em março, no entanto, o preço do produto se manteve em R$ 150. A inflação, em março, foi zero. Ainda que o preço do produto tenha explodido e esteja bem alto, não houve, no período determinado, alta de preço.
 
A materialização da inflação, com base em índices de preços que não passam de reles e rústicas aproximações do fenômeno, só ajuda a bagunçar ainda mais a cabeça. Para concretizar a abstração do valor real da moeda, os economistas calculam índices de preços. Eles são compostos a partir de orçamentos domésticos, obtidos em pesquisas, como a POF (pesquisa de orçamento familiar), do IBGE. Cada pessoa, ou pelo menos cada grupo de pessoas – classificadas por renda, preferências, estilos de vida, faixa etária etc – tem um orçamento singular, uma lista dos produtos e serviços que consome, ponderado pelo peso relativo de cada item na renda total.

No fim das contas, a minha inflação é só minha e diferente da sua e da do outro. Depende do tipo de consumo de cada um. Os índices tipo IPCA, INPC, IGP e uma vasta sopa de letras tentam uma generalização. São, grosso modo, médias de médias de médias.

Por não ter isso em mente, um internauta, no chat de que participei na manhã de hoje, me perguntou, num tom de denúncia, por que o IPCA deu 5,9% no ano, mas, calculado pelo grupo de renda até 2 salários mínimos, dava 7,5%. Isso não tem nada de manipulação, nem de perseguição com os mais pobres. Expressa apenas o fato de que o item alimentação puxou a inflação para cima e, como os gastos dos mais pobres com alimentos são, na regra geral, proporcionalmente maiores (atenção: eu disse proporcionalmente ao total da renda), a inflação do grupo ficou mais elevada. 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.