Inflação: “normalidade” pode ser mais efêmera

José Paulo Kupfer

24 Agosto 2018 | 16h50

O retorno à “normalidade”, evidenciada pela inflação próxima da estabilidade em agosto, na comparação com julho, medida pela variação do IPCA-15, corre o risco de ser mais efêmero do que o previsto depois da dissipação dos efeitos inflacionários provocados pelo choque de oferta com origem na greve dos caminhoneiros de maio. A escalada das cotações do dólar, mesmo com a atividade econômica fraca, anda afetando, negativamente, expectativas e projeções para a inflação.

Com alta de 0,13% em agosto, o IPCA-15 acumula elevação de 3,14% no ano e de 4,3% em 12 meses. As projeções para o IPCA cheio de agosto, calibradas pela “prévia”, convergem para uma variação perto da estabilidade. Antes dos saltos na cotação do dólar, as previsões para a inflação até o fim do ano mostravam o IPCA mensal variando em torno de 0,3%, o que levaria o índice, no fim do ano, a avançar pouco acima de 4%. Mas, agora, esse cenário pode se alterar, com a inflação encostando em 4,5%, o centro da meta.

O principais componentes que pressão sobre o IPCA-15 do mês vieram de preços administrados, caso das tarifas de energia elétrica e das mensalidades de planos de saúde. Os preços livres recuaram, com destaque para alimentos. Também combustíveis e passagens aéreas colaboraram na redução do índice. Esse quadro, porém, deve sofrer alterações para cima até o fim do ano. Sustenta essa suspeita a expectativa dos consumidores de que haverá alta de preço no futuro próximo, registrada nas sondagens da Fundação Getúlio Vargas (FGV) desde junho.

Impulsionada por fatores externos — guerra comercial EUA x China, altas nos juros americanos de referência e risco de contágio da crise na Turquia — e domésticos — derivados sobretudo dos temores do mercado com a marcha das pesquisas eleitorais —, a taxa cambial vem apresentando uma trajetória de elevação já duradoura. Do início do ano até agora, a cotação do dólar subiu 20%.  Só nos últimos oito dias, o real se desvalorizou mais de 6% ante o dólar, em oito sessões consecutivas de depreciação.

O nervosismo no mercado tem sido acompanhado pelo Banco Central com silêncio e inação, o que tem provocado estranheza crescente entre operadores e analistas. A mensagem do BC em relação ao câmbio é a de que só atua para oferecer liquidez, mitigando a volatilidade e mantendo o bom funcionamento do mercado. Segundo a comunicação do BC, tais intervenções devem ser operadas diretamente sobre a taxa cambial, com instrumentos específicos como swaps cambiais e leilões de moedas. O recurso à política de juros só ocorre, ainda de acordo com o BC, quando se verificam efeitos secundários das variações do dólar na inflação.

Em maio de 2017, na crise deflagrada pela delação da JBS, que envolveu o presidente Michel Temer, o BC interveio com a oferta de dólares via swaps cambiais. Um ano depois, em junho de 2018, o BC injetou doses maciças de swaps cambiais, para fazer frente à volatilidade causada por altas do dólar no mercado financeiro global. Nessa ocasião, os estoques de swaps saltaram de menos de US$ 25 bilhões para quase US$ 70 bilhões, em que permanecem.

Altas mais duradouras do dólar ante o real são transmitidas aos preços, inicialmente, pelos canais dos bens importados que, por sua vez, servem de base para aumentos de preços dos concorrentes internos. Preços de alimentos e bens duráveis domésticos, que competem com importados, são, em geral, os primeiros a serem afetados. Impactos diretos alcançam, por exemplo, pães, massas e biscoitos — derivados de trigo —, assim como aves e suínos, cuja ração deriva do milho.

Cálculos baseados em situações passadas mostram que, a cada 10% de elevação na cotação do dólar, a inflação média se eleva em 0,75%. Essa relação, porém, depende do nível de demanda de consumo, que é correlacionado com o nível de atividade na economia. Quando a atividade está fraca, há mais dificuldade em repassar aumentos de custos aos preços finais — e vice-versa.

No momento a atividade se apresenta bastante fraca, com reflexos nos níveis elevados de desemprego e aumento da informalidade. Assim, a transmissão (“pass through”, em economês) tende a ser menos acentuada. De todo modo, alguma pressão sobre os preços sobrevive e as primeiras projeções de inflação mais alta do que antes projetada, ainda que se mantendo no entorno do centro da meta, já estão aparecendo.