Inflação recua dos dois dígitos e projeções apontam trajetória de queda

José Paulo Kupfer

08 de abril de 2016 | 11h40

A inflação em março, medida pela variação do IPCA, veio como previsto, abaixo de 0,5%, em relação a fevereiro, e de 9,39% em 12 meses. Deixou, portanto, a faixa dos dois dígitos. Deve agora caminhar, em ritmo lento, mas relativamente seguro, na direção do intervalo da meta de inflação. As previsões são que ficará abaixo de 6,5% já no fim deste ano ou nos primeiros meses de 2017. Mas o centro da meta, de 4,5%, não seria alcançado antes de 2018.

Acomodação dos itens antes represados, taxa de câmbio mais favorável, efeitos da recessão mais visíveis na marcha dos preços, como os analistas mais serenos já previam, atuam para acomodar a alta de preços. Redução expressiva do índice de difusão, que desceu de 77,2% para 69,4%, porcentual próximo da média histórica, comprova a tendência.

Baseado em projeções confiáveis de analistas independentes, descrevi, em texto publicado no dia 23 de fevereiro, já há um mês e meio, a trajetória agora desenhada pela inflação, na contramão de muitos que anunciavam, a partir daquele resultado, novas explosões de altas de preços. Naquele momento, o IPCA-15 havia atingindo um pico, com alta mensal de 1,42% e 10,84%, em 12 meses.

Com a proximidade do fim do forte ciclo de reajuste dos preços administrados, ainda mais potencializados pela estiagem incomum que afetou muito negativasmente os preços da energia elétrica e o freio quase aritmético na escalada da taxa de câmbio, as pressões inflacionárias inevitavelmente tenderiam a arrefecer. É o que agora se está confirmando.

Os índices de preços dos primeiros dois meses do ano também foram puxados para cima por reajustes sazonais com alta impacto no conjunto. Foi o caso das despesas com Educação — matrículas e material escolar — e transporte — reajuste de tarifas de transportes públicos urbanos. Esses itens agora passam a contribuir para aliviar as variações de preços.

Alimentos in natura, um dos itens mais instáveis e menos previsíveis da inflação, registraram repiques de alta em março. Eles responderam por 70% da variação no mês e só a alta de preço do inocente mamão, por exemplo, explicou quase um quarto da variação registrada. O item Vestuário, com o fim das promoções de início do ano e na véspera da entrada da coleção outono-inverno, também pressionou.

Ficou também mais claro, na inflação de março, a tendência de recuo nos itens da categoria Serviços. É um sinal de que a demanda, corroida pelo desemprego, a queda na renda e a contração do crédito está fraca o suficiente para  quebrar resistências nos setores que mais apresentam condições de reajustar preços por inércia (indexação).

As projeções para abril são de alguma elevação do IPCA do mês, algo em torno de 0,65%, mas, com isso, o acumulado em 12 meses continuaria na casa de 9,3%. O reajuste sazonal dos produtos farmacêuticos é o componente de maior pressão mensal prevista, compensado em parte pela retração estimada em alimentos.

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