Informalidade de volta

Já são três meses consecutivos de contração na criação de vagas no mercado formal de trabalho e a tendência é de que o encolhimento prossiga. Diante disso, a ainda relativamente baixa taxa de desemprego, medida pelo IBGE, se explica pelo aumento da informalidade e de trabalhadores por conta própria.

José Paulo Kupfer

18 de março de 2015 | 19h52

O mercado formal de trabalho, acompanhado pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho,  está passando por um encolhimento muito rápido e bem profundo.  O mês de fevereiro, com o fechamento de 2,4 mil vagas, o primeiro fevereiro em que ocorre eliminação líquida de vagas desde 1999, não é um ponto fora da curva. É notável a perda de dinamismo do mercado formal desde o pico de 2010, quando, em fevereiro, foram criados 280 mil novos postos de trabalho com carteira assinada. O suspiro de 2014, quando, em fevereiro, foram criados 260 mil novos postos, é que driblou a tendência.

Nos últimos três meses, ocorreu um gradual e consistente aumento do número de vagas fechadas. Com correção sazonal, a eliminação de postos de trabalho formais avançou de 43 mil, em dezembro, para 80 mil, em fevereiro. Mesmo levando em consideração os feriados do carnaval e o tradicional adiamento de contratações no período, o movimento foi forte.

Quando se compara fevereiro de 2015 com o mesmo mês, no ano passado, a eliminação de vagas é de grandes proporções. No mês passado, do total dos oito setores analisados apenas três não apresentaram fechamento líquido de postos – indústria, administração pública e serviços –, mas os volumes deste ano são infinitamente menores do que os de fevereiro de 2014. Na indústria, por exemplo, foram criadas 2 mil vagas neste ano contra mais de 50 mil, em fevereiro do ano passado.

As maiores perdas, entre os setores, ocorreram na construção civil e no comércio. Entre as 25 mil vagas criadas, em fevereiro de 2014, e as 25 mil fechadas, em fevereiro deste ano, foram eliminados 50 mil postos de trabalho formal. Também o comércio contribuiu negativamente. Foram outros 50 mil postos fechados entre os 20 mil criados em fevereiro de 2014 e os 30 mil destruídos, em fevereiro de 2015.

As perdas de empregos formais não se refletem integralmente nas taxas de desemprego porque, nas pesquisas do IBGE, não são apenas os empregos com carteira assinada são computados. O fato é que os índices de desemprego, ainda relativamente baixos, na faixa de 6,5%, revelam um aumento no segmento informal do mercado de trabalho e na categoria do trabalho por conta própria. Depois de a forte onda de formalização do mercado de trabalho, na segunda metade dos anos 2000, a reversão da tendência – e seu possível aprofundamento ao longo de 2015 – é preocupante e lamentável.

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